Julho 3, 2008

Depois da Picareta, o Berbequim Eléctrico

Ontem, ao ouvir a entrevista que Pinto de Sousa deu ao canal público, dei por mim a pensar como é perfeitamente normal (à luz da evolução humana) que o discípulo supere o mestre.

Foi assim que pude constatar, entre o basbaque e o maravilhado, que Portugal evoluiu bastante em dez anos. Será provavelmente fruto do choque tecnológico, o que permitiu que passássemos da picareta falante ao berbequim falante. Tal “upgrade” garantiu que Pinto de Sousa arrasasse por completo a mais pequena veleidade dos entrevistadores em o desviarem do discurso propagandístico preparado. Com um furor e uma rotatividade verdadeiramente impressionantes, todos os obstáculos foram furados, esburacados mesmo e no final só não veremos a luz ao fundo do túnel em 2009, porque o túnel foi transformado num enorme buraco, tal a potencia do berbequim.

Julho 1, 2008

Educação & Obras = + Paixão Pêéssiana

Numa altura em que as dificuldades de Pinto de Sousa se vão tornando evidentes e quando vai ficando cada vez mais claro que a renovação da maioria absoluta, que desgraçou os portugueses, é uma miragem, eis que volta a “Paixão pela Educação”:

Modernização de escolas custa dois mil milhões

«Além do financiamento europeu e do orçamento de Estado, haverá uma fatia bancária que poderá rondar 35%. Os encargos com esta dívida contraída pela empresa serão pagos pelo Ministério da Educação, num modelo chamado de disponibilidade, que equivale a uma espécie de renda. Por cada metro quadrado recuperado para a escola será calculada uma verba a pagar pelo orçamento. A renda dependerá do custo do financiamento bancário.

…O modelo de financiamento implica dívida pública, mas para Sintra Nunes “ou recuperamos escolas ou não as recuperamos”…

…No anterior modelo de financiamento estavam previstas verbas que vinham da valorização do património e de desenvolvimento de unidades de negócio nas próprias escolas. Estas pequenas quantias podem, no futuro, pagar por exemplo reparações.

A modernização surge devido à forte degradação de muitas escolas secundárias, pressionadas pela sobrelotação.»

A novidade (se de novidade se trata) é que agarradinha que nem uma lapa à “paixão pela educação” vem a “paixão pela obra pública” que leva atrelada a “paixão pelo empreendedorismo privado”.

Na verdade é um empreendedorismo privado em que o dinheiro aplicado sai dos bolsos dos mesmos: os contribuintes que não têm como fugir ao fisco, i.e., os trabalhadores por conta de outrem e os funcionários do Estado. E é fácil verificar, uma vez que o financiamento se divide em três partes - fundos europeus (que têm origem nos impostos cobrados aos europeus, entre os quais se contam os portugueses), orçamento de Estado (+ impostos de portugueses) e um empréstimo bancário que, como os bancos não são instituições de beneficência, será pago, com juros, pelo orçamento do ministério da educação (financiado pelos impostos dos mesmos do costume).

Tudo isto vem “embrulhado” num pacote que valoriza o privado, pois em vez de a reabilitação ser feita pelo ME será uma empresa, para quem o ministério transferiu o seu património, a lucrar com a adjudicação das obras e negociação correspondente, bem como com o aluguer do património que pertencia ao ministério e que agora passa a ser um activo da Parque Escolar EPE.

Junho 28, 2008

Orçamentos de Escola e Conselhos Executivos “criativos”

Para não lhes acontecer o mesmo que aos reitores das Universidades portuguesas, que foram acusados pelo ministro Teixeira dos Santos de má gestão, alguns conselhos executivos recorrem a toda a sua criatividade na captação de verbas para o orçamento anual.

Assim, apesar das ordens expressas para não se cobrarem quaisquer verbas a título de matrícula de alunos ou sua renovação, em várias escolas os estudantes e os respectivos encarregados de educação são “convidados” a dar um donativo para a escola.

Os “donativos” variam entre os oito e os doze €. Podem ser cobrados a propósito da emissão do cartão de aluno ou sua “renovação”, para apoio às despesas da escola com materiais e/ou visitas de estudo e só quando alguém questiona mais veementemente é que surge a explicação do donativo, última arma do arsenal criativo destes gestores de mão cheia.

Claro que são sempre “donativos” com verba rigorosamente estipulada pelo órgão de gestão, não sendo aceite verba inferior e como tal não sendo emitido o respectivo recibo.

Junho 27, 2008

Burocratas, Papistas e ignorantes

O discurso da autonomia das escolas, da importância inestimável que o empenho de muitos professores se tem traduzido na recuperação de alunos para o sistema e da batalha contra o abandono, é um discurso que vende bem nos jornais e televisões e que tanto a ministra como os seus secretários têm sempre na ponta da língua.

O problema é quando esse discurso tropeça na ignorância e no “papismo” dos burocratas que, nos organismos centralizados e centralistas do ministério, estão pouco preocupados com a vida dos alunos, com o empenho e dedicação dos professores e sobretudo com a autonomia pedagógica das escolas. Para o burocrata que precisa de um lugar na estrutura central do ministério, o que importa é “mostrar serviço” e garantir a continuação da requisição.

É o caso da apreciação de dois projectos de Percursos Curriculares Alternativos (PCA) apresentados por um agrupamento que serve uma população carenciada, constituída maioritariamente por imigrantes com graves problemas no domínio da língua portuguesa, que se traduzem em grave desfavorecimento social e económico.

A pessoa a quem coube ler e dar um parecer sobre os projectos, não tendo tido capacidade para entender que os alunos seleccionados são crianças que, antes mesmo de chegarem ao referido agrupamento, têm um percurso de insucesso repetido com risco de abandono escolar, agarrou-se à grelha da matriz curricular do 6/2001 para não aprovar a possibilidade de alguns conteúdos disciplinares, que têm uma evidente conexão interdisciplinar, poderem leccionados por dois professores em simultâneo.

Os faxes enviados tiveram como efeito o abandono do projecto referente aos alunos do 1º ciclo (porque o projecto só é exequível com uma leccionação coadjuvada). Quanto ao 2º ciclo, porque a equipa que abraçou o projecto é constituída por professores com muita experiência e saber, a reacção oscilou entre a indignação e a gargalhada. Como essa equipa sabe que a regulação vertical, centralizada e burocrática apenas serve para justificar a existência da estrutura hierárquica, o que ficou resolvido é que se mudam os nomes aos bois e os alunos terão direito a um percurso curricular que garanta as aprendizagens e não que sirva apenas para as estatísticas ministeriais.

Junho 25, 2008

A Luta continua!

Porque não existem motivos para abrandar os protestos!

Porque o ME continua a aplicação absurda de políticas educativas erradas!

Porque o Ensino continua a ser mal tratado e os professores a serem desrespeitados!

Porque o ECD tem que ser revisto!

Porque é preciso voltar a uma carreira única de professor!

Junho 24, 2008

Outras Avaliações

Ao contrário do trabalho a que fiz referência no meu post anterior, o trabalho do João Paulo Videira, que o Paulo Guinote disponibilizou já no seu (dele) Umbigo, apresenta uma perspectiva formativa, integradora e saudável da avaliação do desempenho docente, que se poderá traduzir em ganhos na qualidade do serviço prestado pela Escola Pública. Penso que vale a pena confrontar as duas perspectivas para melhor perceber o que está em jogo.

Junho 23, 2008

Operacionalização da avaliação de desempenho

Um pouco por acaso descobri um blogue em que um professor coloca à nossa disposição um conjunto de instrumentos relacionados com a avaliação do desempenho docente.

Trata-se de um trabalho que por certo obrigou a um enorme gasto de tempo e de energia. No entanto espero que o seu destino seja o caixote do lixo, não porque tenha algo contra o(s) seu(s) autor(es), que nem sequer conheço, mas porque tenta operacionalizar e tornar exequível o aberrante modelo do DL 2/2008.

A minha grande discordância com a visão que transparece em todos os documentos prende-se com uma responsabilização individual que lhes está subjacente, esquecendo que o desempenho de uma organização é muito mais do que a soma dos desempenho dos seus membros.

Sendo esse o maior erro do modelo de avaliação em vigor, é lamentável que haja tantos professores que se empenham em por de pé algo que tem que ser destruído através da inteligência e da resistência de todos.

Junho 23, 2008

A Crise e o Descanso

Num país de criativos e de desenrascados, como é o caso do Portugal modernaço de Pinto de Sousa, aqui fica uma excelente sugestão de férias:

Junho 23, 2008

Um programa aliciante que recebi por email

Esquerda e cultura: o futuro já não é o que era

4 e 5 Julho 2008 :: Lisboa, Fábrica Braço de Prata
ENTRADA LIVRE até às 22:00
Jantares sujeitos a inscrição
Programação: Miguel Portas

Exposições
Migrações e Identidades
Fotografias da série Luso-Tropicália de Tatiana Macedo
Just do it e Freedom, instalações de Mónica de Miranda
Outros-realismos
Moscovo-Bucareste-Moscovo, pintura de Margarida Dias Coelho
Mulheres de Maria Lamas, pintura de Miguel Mira

Programa de Sexta-feira

18:00 - 20:00 Colóquio
Abertura do encontro por Francis Wurtz, presidente do GUE/NGL
Políticas culturais na Europa de hoje
António Pinto Ribeiro, ensaísta e programador cultural
João Fernandes, programador cultural
Luciana Castelina, italiana, ex- presidente da Comissão da Cultura e Educação do Parlamento Europeu
Com tradução simultânea

20:00 - 20:30 Circo: Performance circense pelo grupo ADN
A ocorrer às 20:00 e às 22:00 na sexta e no sábado

20:30 - 23:30 Conversas com paladar
Inscrições para jantar limitadas a 80 pessoas
Culturas do Mediterrâneo
O jantar de sexta-feira será de comida sírio-libanesa, em que o “chefe” é Rudolf El Kareh, sociólogo libanês, autor, entre outros, de um livro sobre comida sírio-libanesa. A partir do café, ele próprio e Cláudio Torres, arqueólogo e historiador, orientarão uma conversa sobre culturas, tradições e cosmopolitismo.

22:30 - 24:00 Ateliers da política
Contaminações
A revista Vírus convida outras revistas do pensamento crítico para um debate dinamizado por João Teixeira Lopes, sociólogo, director da revista

22:30 - 23:30 Monólogos fantásticos
Ensaio, peça sobre fotografia e violência a partir de textos de Susan Sontag, por Vítor Hugo Pontes

00:00 - 01:00 Músicas da noite
Grândolas, concerto para dois pianos
Mário Laginha e Bernardo Sassetti

Programa de Sábado

15:30 - 17:30 Colóquio
Introdução por Miguel Portas, eurodeputado do Bloco de Esquerda no GUE/NGL
Esquerda: uma política para o “gosto”?
António Guerreiro, ensaísta e jornalista cultural
Manuel Gusmão, poeta, ensaísta e professor de Literatura portuguesa, Literatura francesa e Teoria da Literatura na Faculdade de Letras de Lisboa
Manuela Ribeiro Sanches, investigadora do Centro de Estudos Comparados da Universidade de Lisboa, com vasta obra publicada sobre questões de identidade na era pós-colonial

17:30 - 20:00 Ateliers da política
Ensino artístico, “entrada” na profissionalização
e precariedade
Este atelier tem por objectivo recensear, a partir de diferentes experiências, como se pode responder ao aumento da precariedade nos meios artísticos e como conceber, hoje, o ensino artístico. Participam docentes de várias escolas e representantes dos movimentos anti-precariedade ligados à criação cultural.
O novo e o velho em matéria de descentralização cultural
Centros e projectos culturais associam-se em rede para potenciarem programações fora dos grandes centros urbanos. Que políticas deve a esquerda defender para que a oferta cultural coloque no mapa os territórios sob pressão do despovoamento? Participam responsáveis por equipamentos, centros culturais e festivais.

18:30 - 20:30 Conversas de café
A propriedade intelectual na era digital
Daniel Oliveira, jornalista e blogger
David Ferreira, produtor discográfico
João Teixeira Lopes, sociólogo, ex-deputado do Bloco de Esquerda e professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto

20:30 - 23:30 Conversas com paladar
Inscrições para jantar limitadas a 80 pessoas
Culturas locais
André Bica é o chefe do jantar de sábado, com queijo da serra e vitela de Lafões. Ao café, a conversa incidirá sobre as identidades locais, a certificação e as regula-mentações europeias, com Paulo Madanelo da Associação de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela e Jacob Johnsson, deputado sueco, defensor das regras de protecção mais elevadas.

22:30 - 23:30 Monólogos fantásticos
Ela uma vez, por Cláudia Andrade, sobre textos de sete poetisas lusófonas (Adélia Prado, Adília Lopes, Ana Haterly, Ana Luísa Amaral, Elisa Lucinda, Marina Colasanti e Natália Correia)

00:00 - 01:00 Fado
Hélder Moutinho e convidados

00:00 - 01:30 Músicas da noite
Incógnita alquimia, novo folk português
Dazkarieh


“Si supones que no existe esperanza, entonces garantizas que no habrá esperanza. Si supones que existe un instinto hacia la libertad, entonces existen oportunidades de cambiar las cosas” (Noam Chomsky)

Junho 22, 2008

Mudar as realidades de acordo com os desejos e interesses

Nos últimos dias muita gente tem acusado a ministra da educação de mistificar os resultados escolares. Acusam-na de o conseguir através de exames que nada mais fazem do conformar a “realidade” aos interesses propagandísticos do governo. Trata-se de uma crítica justa, pois o trabalho do GAVE distorce a realidade para melhor fazer passar a mensagem da ministra, o que deve ser criticado duramente.

A reflexão sobre o merecimento da crítica, não só à ministra da educação mas também a todos quantos transformam e retorcem os factos, produzindo um discurso falso que justifique as suas posições pessoais, surgiu-me na sequência do debate  de ontem na Associação 25 de Abril.

Mais uma vez houve quem estivesse mais interessado na crítica às posições sindicais do que na análise dos caminhos futuros. Mais uma vez houve quem se colocasse em bicos de pés, tentando cavalgar a “onda do 8 de Março”, mesmo quando dois dias antes dessa grande manifestação não quisesse estar presente e lá tenha ido a contra-gosto.

Se é verdade que a ministra falseia os resultados e esconde a realidade para melhor enganar os portugueses, não é menos verdade que há quem, entre os professores, seja tão falso como a ministra. Com o que não contavam, nem uns nem outros, era com o facto de haver gente com memória e que sabe como as coisas se fazem e se mistificam.