Julho 4, 2009

Escola de “exigência” – escola que pode magoar

Daniel Pennac é um escritor francês de enorme popularidade. Tem alcançado grande sucesso internacional com alguns dos seus romances.

Em 2007 obteve o Prémio Renaudot com uma obra em que relata a sua experiência traumatizante enquanto aluno cábula, que de acordo com os canones da “escola da exigência e do rigor” o teria destinado a “não ter futuro”.

Para aguçar o apetite, e de certa forma provocar os grandes defensores do rigor, da excelência e do papel selectivo da escola, reproduzo de seguida a ficha de informação estampada na contra capa do livro

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Note-se que se trata de uma avaliação realizada no ano da graça de 1954, o que se a compararmos com algumas peças literárias produzidas em muitos conselhos de turma das nossas escolas básicas e secundárias, apenas nos confirma que a escola e as suas práticas não terão mudado tanto assim.

Mas, para deixar mais um gostinho, fica um excerto dos primeiros capítulos do livro:

Dois cavalheiros de uma certa idade passeiam nas margens do Loup, o rio da sua infância. Dois irmãos. Eu e o meu irmão Bernard. Meio século antes, mergulhavam naquela transparência. Nadavam no meio das fataças que não se assustavam com o alvoroço provocado.

(…)  Anuncio a Bernard que tenciono escrever um livro tendo como tema a escola; não a escola que muda na sociedade que muda, como mudou este rio, mas, no cerne desta incessante agitação, sobre o que não muda, justamente, sobre uma permanência sobre a qual nunca ouço falar: a dor partilhada entre o cábula, pais e os professores, a interacção entre estas mágoas da escola.

(…) Não, um livro sobre os cábulas! Sobre a dor de não compreender, e os seus danos colaterais.

- Podes dizer-me mais alguma coisa sobre o cábula que eu fui?

- Queixavas-te de falta de memória. As explicações que eu te dava à tarde evaporavam-se durante a noite. No dia seguinte de manhã tinhas esquecido tudo.

De facto. Eu não decorava, como hoje dizem os jovens. Não compreendia nem decorava. As palavras mais simples perdiam substância logo que me pediam que as encarasse como objecto de conhecimento. Se tivesse de aprender uma lição sobre o maciço do Jura, por exemplo (mais do que um exemplo é, na verdade, uma recordação muito precisa), esta pequena palavra decompunha-se imediatamente até perder qualquer relação com o Franco-Condado, o Ain, a relojoaria, as vinhas, os cachimbos, a altitude, as vacas, os rigores do Inverno, a fronteira com a Suíça, o maciço alpino ou a simples montanha. Não representava mais nada. Jura, dizia para comigo, Jura? Jura … E repetia a palavra, incansavelmente, como uma criança que nunca mais acaba de mastigar, mastigar sem engolir, repetir sem assimilar, até à total decomposição do gosto e do sentido, mastigar, repetir, Jura, Jura, jura, juro, juras, jura, jurojurasjura, até a palavra se tornar uma massa sonora indefinida, sem o mais leve resquício de sentido, um ruído pastoso de ébrio num cérebro esponjoso … É assim que se adormece sobre uma lição de Geografia.

(…) Sim, é próprio dos cábulas, repetem à exaustão a história da sua cabulice: sou um zero, nunca conseguirei, nem vale a pena tentar, estou antecipadamente tramado, eu bem vos dizia, a escola não foi feita para mim … A escola afigura-se-lhes um clube muito fechado no qual se recusam a entrar. Com a ajuda de alguns professores, às vezes.

(…) Dois cavalheiros de uma certa idade passeiam ao longo de um rio. No final do passeio, alcançam um charco rodeado de canas e seixos.

Bertrand pergunta:

- Continuas a ser especialista em ricochetes?

Pennac, D. (2007), Mágoas da Escola, Porto Editora 1ª ed. 2009

Julho 3, 2009

Na melhor tradição Salazarista

Maria de Lurdes Rodrigues, seguindo a melhor tradição salazarista, arrogou-se o direito de afirmar que “procurou nunca fazer política” ao tomar decisões sobre a educação e a escola pública.

É preciso recordar que a divisa do ditador, e do Estado Novo, também era «A minha política é o trabalho».

Julho 3, 2009

Separando o trigo do joio

Na sequência da notícia sobre a disponibilidade do PSD mudar tudo na educação, esquecendo-se convenientemente de incluir nesse “tudo” o decreto sobre a administração e gestão escolar, surgiram diversas vozes críticas desse “esquecimento”.

Mas logo de seguida, tentando branquear um passado escuro como breu que MFL tem, no que à educação diz respeito, logo apareceram vozes tentando jogar tudo à molhada e afirmando que também da parte dos sindicatos não se ouvem críticas ao modelo centralista do 75/2008. Claro que a coisa começou com afirmações genéricas, do género «os sindicatos também nada dizem», para aos poucos evoluír para acusações e insinuações, que apesar de mais veladas, não deixam de ser caluniosas e visam concretamente a única federação sindical que desde sempre tem uma posição clara sobre o assunto.

E se alguém andar esquecido ou tiver dúvidas, poderá consultar esta pequena lista de exemplos:

Julho 3, 2009

Despedimento injusto

manelzinho

Como dizia ontem o 1º ministro Pinto de Sousa, à saída do debate sobre o estado da nação, a política às vezes é muito injusta.

Ontem calhou a vez ao ministro Pinho. Teve que provar o sabor amargo da injustiça, sendo liminarmente despedido apenas por ter exteriorizado (de forma explícitamente gestual) a forma como o seu chefe, protector e mentor tem maltratado (toureado é capaz de ser um termo mais apropriado) o parlamento e os deputados, perante quem tem que prestar contas.

Quem não se recorda da forma arrogante, mal-criada mesmo, como Pinto de Sousa sempre se dirigiu aos deputados da oposição (tanto à sua esquerda como à sua direita), ao longo de toda a legislatura? Quem esqueceu já a forma deselegante, agressiva e prepotente com que Pinto de Sousa sempre se dirigiu a quem se atrevia a fazer-lhe frente, ou simplesmente a colocar questões incómodas?

Manuel Pinho, numa altura em que o controlo e a compostura deste governo anda pelas ruas da amargura, achou que podia destratar o líder de uma bancada parlamentar que o estava a incomodar. Deu de barato que estava na Assembleia da República (casa que durante 4 anos se habituou a ver desrespeitada pelo seu chefe) e não se lembrou que as câmaras de televisão tudo vêem e tudo gravam.

Resta saber se pessoalmente teve azar, ou se apenas antecipou mais uma reforma dourada, numa qualquer empresa disponível para reciclar ministros caídos em desgraça. Para já tem direito a ir de férias mais cedo do que os seus colegas de governo.

Julho 2, 2009

Ai sim? E quanto à gestão? Nada a dizer?

Parece que a opinião dos “professorzecos”, e o aval que possam dar aos programas eleitorais dos vários partidos concorrentes às eleições gerais de Setembro, está a por a cabeça de muita gente a andar à roda.

Segundo dizem os jornais, Manuela Ferreira Leite (a quem já se vaticina a glória de vencer as próximas eleições) anunciou que quer mudar tudo na educação, no caso de os portugueses (professores incluídos) lhe entregarem o governo do país.

Mas será mesmo tudo? É que a líder do PSD elencou as medidas que diz querem tomar e fez questão de referir que são quatro os aspectos a alterar: “No nosso programa não poderemos deixar de contemplar a alteração destes quatro aspectos que estão a paralisar o sistema, estão a torná-lo inviável, desmotivador da acção dos professores”.

As tais quatro alterações são os estatutos do aluno e do professor, a avaliação de desempenho e a carga burocrática.

Como se constata, deixou de fora o 75/2008, mais conhecido pelo decreto da gestão ou dos directores, o que significa que para MFL e para o PSD este modelo é para manter.

Tal facto não deixa de constituir uma enorme incongruência, na medida que todo o edifício jurídico construído pelo PS obedece a uma lógica de centralização burocrática e de controlo hierárquico rigoroso, que começa exactamente no 75/2008 e do qual o ECD é apenas um pilar, que contém no seu seio o modelo de ADD.

Das duas uma, ou MFL quer mudar tudo e não pode deixar de fora o decreto da gestão, ou este anúncio não passa de propaganda eleitoral, e o que MFL vai mudar no ECD e na ADD serão apenas os aspectos superficiais, não indo ao fundo da questão, que é valorizar o profissionalismo docente e devolver a dignidade profissional aos professores, ao serviço de uma escola para tod@s.

Julho 1, 2009

Que Escola Pública queremos construir?

Parece consensual a ideia de que os “dias negros”  da Educação, para onde o governo de Pinto de Sousa empurrou a Escola Pública, chegarão ao fim lá para meados de Outubro, com a constituição de um novo governo e de uma nova equipa para a educação.

Infelizmente, atirar a equipa liderada por MLR/PS para o caixote do lixo da história não significa a redenção completa e imediata da Escola Pública e, muito menos, a garantia da regeneração de um modelo educativo que sirva tod@s @s portugueses e promova um país mais desenvolvido e mais justo para quem aqui vive e trabalha. Apenas cria algumas condições para retomar esse caminho.

Desse modo é importante começar, desde já, a pensar que futuro queremos para a escola dos nosso filhos e netos.

Não será drama nenhum constatarmos que sobre esse futuro haverá forçosamente divisões. O que nos uniu contra o absurdo das políticas de MLR foi a certeza de que este governo, que agora se fina, não tinha como prioridade a defesa da educação e da escola de qualidade para tod@s. Sabíamos que tudo se resumia à obsessão com as contas públicas e com um ataque despudoradamente eleitoralista contra uma classe muito qualificada e socialmente muito respeitada.

Mas estar contra um inimigo poderoso e impiedoso permite atenuar diferenças até ao momento da aniquilação dessa ameaça. A partir do momento em que se torna necessário construir novos projectos, as diferenças antes atenuadas passarão a surgir naturalmente e cada um defenderá as suas opções com o máximo de convicção.  Não adianta acreditar em falsos unanimismos, que apenas sobrevivem com base na anulação de vontades, em favor da vontade de um qualquer ditador de ocasião.

A luta e a unidade dos professores ao longo dos últimos quatro anos, que foi possível forjar e manter apesar do ataque feroz que foi lançado pelo governo de Pinto de Sousa e por todas as forças conservadoras que o apoiaram, qual novo Sebastião redentor, constituem um património que não deve ser desbaratado em favor de alinhamentos partidários.

Claro que sabemos que em 27 de Setembro cada professor terá que fazer uma opção e colocar (ou não) uma cruzinha num boletim de voto. Essa opção traduzirá o apoio inequívoco a um partido e ao respectivo projecto para a educação (caso o tenha, independentemente do que esteja escrito no seu programa eleitoral). Os portugueses, e os professores como classe qualificada e socialmente comprometida, têm consciência de que entre os programas eleitorais e as práticas governativas há muitas vezes anos-luz de diferenças.

Estamos em “pré-campanha” para as eleições gerais para a Assembleia da República. No dia 27 de Setembro vamos eleger os deputados, que constituindo as maiorias possíveis no seio da Assembleia determinarão a escolha do futuro governo.

Talvez seja acertado utilizarmos estes meses que faltam, para exercer o nosso direito/dever cívico de votar, para encontrar respostas a algumas perguntas sobre a Escola Pública que queremos. Com o objectivo de ajudar a sistematizar um “questionário” possível, vou socorrer-me de Fançois Bégaudeau e do seu romance «Entre les Murs», que foi adaptado ao cinema e cuja leitura aconselho vivamente a todos os professores e educadores:

1. Quais são os valores da escola republicana e como proceder para que a sociedade os reconheça?
2. Quais devem ser os deveres da escola, na hora da Europa e nas próximas décadas.
3. Para que tipo de igualdade na escola devemos tender?
4. Devemos dividir de modo diferente a educação entre juventude e idade adulta, e envolver mais o mundo do trabalho?
5. Que base comum de conhecimentos, de competências e de regras de comportamento devem os alunos dominar prioritariamente no termo de cada etapa da escolaridade obrigatória?
6. Como deve a escola adaptar-se à diversidade dos alunos?
7. Como melhorar o reconhecimento e a organização da via profissional?
8. Como motivar e levar os alunos a estudar de forma eficaz?
9. Quais devem ser as funções e as modalidades da avaliação dos alunos, da classificação e dos exames?
10. Como organizar e melhorar a orientação dos alunos?
11.Como preparar e organizar o acesso ao ensino superior?
12. Como podem os pais e os parceiros exteriores à escola favorecer o sucesso escolar dos alunos?
13. Como lidar com os alunos em grande dificuldade?
14. Como escolarizar os alunos deficientes ou atingidos por doença grave?
15. Como lutar eficazmente contra a violência e a falta de civismo?
16. Que relações estabelecer entre os membros da comunidade educativa, em particular entre pais e professores e entre professores e alunos?
17. Como melhorar a qualidade de vida dos alunos na escola?
18. Em matéria de educação, como definir e repartir os papéis e as responsabilidades respectivas do Estado e das colectividades territoriais?
19. É preciso dar mais autonomia aos estabelecimentos e acompanhá-la por uma avaliação?
20. Como deve a escola utilizar o melhor possível os meios de que dispõe?
21. É preciso redefinir as funções da escola?
22. Como formar, recrutar, avaliar os professores e organizar melhor a sua carreira?
1. Quais são os valores da escola republicana e como proceder para que a sociedade os reconheça?
2. Quais devem ser os deveres da escola, na hora da Europa e nas próximas décadas.
3. Para que tipo de igualdade na escola devemos tender?
4. Devemos dividir de modo diferente a educação entre juventude e idade adulta, e envolver mais o mundo do trabalho?
5. Que base comum de conhecimentos, de competências e de regras de comportamento devem os alunos dominar prioritariamente no termo de cada etapa da escolaridade obrigatória?
6. Como deve a escola adaptar-se à diversidade dos alunos?
7. Como melhorar o reconhecimento e a organização da via profissional?
8. Como motivar e levar os alunos a estudar de forma eficaz?
9. Quais devem ser as funções e as modalidades da avaliação dos alunos, da classificação e dos exames?
10. Como organizar e melhorar a orientação dos alunos?
11.Como preparar e organizar o acesso ao ensino superior?
12. Como podem os pais e os parceiros exteriores à escola favorecer o sucesso escolar dos alunos?
13. Como lidar com os alunos em grande dificuldade?
14. Como escolarizar os alunos deficientes ou atingidos por doença grave?
15. Como lutar eficazmente contra a violência e a falta de civismo?
16. Que relações estabelecer entre os membros da comunidade educativa, em particular entre pais e professores e entre professores e alunos?
17. Como melhorar a qualidade de vida dos alunos na escola?
18. Em matéria de educação, como definir e repartir os papéis e as responsabilidades respectivas do Estado e das colectividades territoriais?
19. É preciso dar mais autonomia aos estabelecimentos e acompanhá-la por uma avaliação?
20. Como deve a escola utilizar o melhor possível os meios de que dispõe?
21. É preciso redefinir as funções da escola?
22. Como formar, recrutar, avaliar os professores e organizar melhor a sua carreira?

Junho 30, 2009

Escola como espaço de vida e não apenas de aprendizagem

O espaço de formação específico é a escola, essa escola que é um espaço de viver e não apenas de aprender, e por isso cuja organização deve fazer-se em função dos educandos. Não por eles, porque a instituição permanece, embora mudando, ao longo de sucessivas gerações que a frequentam, e sobretudo porque, não tendo atingido as metas de formação, carecem de competência para escolher os caminhos para as atingir; mas nela devem ter a possibilidade de se ir preparando para organizarem por si próprios. É essencial principalmente que a escola não seja, para eles, um lugar de passagem, onde estão algumas horas por dia sempre ocupados em tarefas que lhes marcam; mas sim um lugar de que se apropriam durante os anos que a frequentam, onde permanecem diariamente para actividades múltiplas e não só para a assimilação de conhecimentos – incluindo as actividades lúdicas. Actualmente, a falta de edifícios tende a transformar as escolas como que em lavagens automáticas de carros, a um turno sucede outro turno, de modo que não se vive na escola, não se vive a escola, está-se em trânsito.

Ora, na emergência e desenvolvimento da personalidade, como na tessitura das relações inter-pessoais, os sucessivos e simultâneos papéis sociais que o eu vá desempenhando, sendo por eles esculpido enquanto lhes imprime a coloração individualizadora, inscrevem-se em configurações da extensão de que algumas marcam o sujeito duradouramente – o lar, a escola, o local de trabalho, o templo ou o clube.

A escola, assim, individualiza do mesmo passo que sociabiliza, na exterioridade do seu espaço apropriado tem como outra face a interiorização. E isso, se nela se vive, e portanto se é activo – Sérgio bem sublinhava que se educa na acção, pela acção. É-se levado a compreender o universo, o ambiente, e a compreendermo-nos, a explicá-lo e a explicar o que somos; como se aprende o ofício, ou melhor, nos formamos para a polivalência do saber-fazer; vamo-nos iniciando, construindo na cidadania, o que implica a solidariedade social mas igualmente que na escola o educando seja tratado por medida, como pessoa, e não massificado. Trata-se de trabalhar (e de estudo como forma de trabalho e textura mental a elaborar a compreensão-explicação), como se trata de praticar desporto (formativo da personalidade e da sociabilidade), de usufruir o deleite estético. Mas a escola tem de ser sobretudo um espaço de formação ética – não de discursos moralizadores, mas de prática reflexiva, com opções criticamente assumidas. Sérgio acentuava repetidamente a vacuidade da pregação moral, mas para ele, centrando tudo na emergência da personalidade, no centro de tudo colocava os múltiplos feixes de acções socialmente situados em que o sujeito assume por si os valores e auto-dita as normas.

Vitorino Magalhães Godinho – prefácio da edição de 1984 de EDUCAÇÃO CÍVICA de António Sérgio

Junho 30, 2009

Aprendendo com os mestres

Confesso que, sobre António Sérgio sei muito menos do que deveria saber, sobretudo quando tenho a veleidade de opinar sobre a Escola Pública e a Escola Para Tod@s.

Um pouco por acaso, no passado sábado, tropecei numa edição de 1984 de uma obra que A. Sérgio escreveu em 1915 – «Educação Cívica». Foi numa incursão à livraria Sá da Costa, no Chiado.

Aconselh0 vivamente a leitura deste texto brilhante de A. Sérgio e, como incentivo, deixo aqui um pequeno excerto:

… a importação de instituições inglesas por todos os povos não engendrou por toda a parte uma administração como a inglesa, e menos ainda improvisou nos países importadores outras tantas Inglaterras. «O grande erro – declama agora a crítica fácil – o grande erro foi importar; e eu rogo licença aos preopinantes para lhes dizer que o grande erro foi não importar suficientemente. Somos como um cavalheiro que mandou vir um certo automóvel sem motor, ou uma aperfeiçoada ventoinha eléctrica sem ter instalado a energia eléctrica. Despachou os caixotes, abriu, montou o carro, deu-lhe de volante, tocou a buzina, bateu o pé, gesticulou, rugiu, estralejou: «Eh, home! Arreda, arreda, que a coisa agora vai marchar! – e a traquitana, apesar de tudo, não buliu; acomodou a ventoinha, e ventoinha parada. Depois arrancorou, gemeu, carpiu-se, e concluiu redondamente: «O automóvel é incompatível com o meu Génio; a ventoinha é inadaptável à minha Raça!»

Voltemos pois aos coches de D. João V, às caravelas de Gil Eanes, às mulas de Afonso Henriques, e resignemo-nos às soalheiras que apanhou, sem ventoinha, o seu neto venerável, D. Afonso II, o Gordo…

Ora, nós imitámos como toda gente a maquineta da Inglaterra, «a civilizadora do mundo», «o país modelo», como lhe chamou Herculano; avezamos constituição, avezamos câmaras, ministérios saídos dessas câmaras, e uns catitinhas de uns pais da pátria que não são como os ingleses, mas enfim, são pais da pátria; e não são – nem somos – como os ingleses, porque copiámos a maquineta mas esquecemo-nos do motor…

O motor, neste caso, é a educação dos Ingleses.

Sabeis que a mola do sistema britânico consiste numa coisa que por ser deles lhe chamaremos como eles lhe chamam: o self-government. Sem dúvida a sociedade, a família, o ambiente educam o Inglês no self-government, mas lá está também a escola a infundi-los nesse molde.

E a nossa escola? Sabe ela ao menos o que isso é? Não, não faz a mínima ideia: eis aí uma das razões por que a maquineta não marcha.

Junho 24, 2009

Ser líder é ser solidário

Recebi por email um pequeno vídeo, que demonstra claramente como os líderes são capazes de fazer a diferença entre o sucesso e o falhanço mais estrondoso.

Há quem tenha dos outros uma ideia tão má que os olhe como “zecos”, “ratos” e outros mimos. Mas também há quem saiba dar a mão solidária ao outro, contribuindo dessa forma para o sucesso colectivo.

O vídeo mostra como Mo Cheeks, treinador dos Portland Trail Blazers, em vez de se juntar ao coro de gozadores e assobiadores, deu o apoio necessário (na hora certa) para que a festa pudesse continuar.

Junho 21, 2009

O governo PS, a campanha eleitoral e a quadratura do círculo

Depois do sucedido no dia 7 de Junho é pacífico, para qualquer português medianamente informado, que o PS construído e governado por Pinto de Sousa se encontra em maus lençóis.

Quando se olha para a história do PS da última década pode perceber-se que a frustração da quase maioria absoluta falhada por Guterres, que conduziu ao episódio do queijo limiano, foi a janela de oportunidade que permitiu que uma pessoa, com a esperteza e determinação que se reconhece ao actual secretário geral, tivesse metido o que restava da alma socialista no fundo do baú, aproveitando para meter no bolso a quase totalidade do que se convencionou chamar a ala esquerda do partido.

Foi este o caldo de cultura que permitiu que sob a bandeira do “socialismo democrático”, e da 3ª via já em falência no seu país de origem, Pinto de Sousa tivesse ganho, primeiro o partido e depois o país.

Uma vez chegado ao poder o “novo homem socialista” assumiu em definitivo a pele do líder determinado, por oposição à do homem dialogante e “indeciso” que tinha sido colada a Guterres. Claro que Pinto de Sousa sabia (e sabe) que o português “profundo” é também o português suave, mas que gosta de ter alguém que mande. Basta ler os manuais de história de Portugal e ver quem foram os líderes que deixaram marca e “obra feita”. E qual o seu perfil psicológico, desde o Marquês até Cavaco, passando pelo inevitável tio António de Stª Comba – autoritário, determinado e inflexível.

Dentro deste quadro como olhar o homem que nos faz regressar, quatro anos depois, às Novas Fronteiras? O que se pode esperar que aconteça daqui até Setembro? Como poderão reagir os portugueses ao discurso, que podendo parecer novo na forma, será necessariamente velho e repetitivo no conteúdo?

Tomando como exemplo as políticas educativas, que são o assunto principal deste blogue, parece-me que a primeira coisa a fazer é descodificar o ruído que ainda possa ser feito a partir da 5 de Outubro.

Nesta altura do ano, e com as matérias ainda em agenda, não será fácil esconder toda a equipa do ME. Mesmo que Pinto de Sousa decida colocar a ministra atrás de um biombo (ou mandá-la de férias prolongadas mais cedo), haverá sempre necessidade de tomar algumas decisões relativamente a matérias tão explosivas como a da avaliação/classificação dos professores.

Tomando como boa a ideia de que a educação deixou de ser uma prioridade de campanha para o PS, que sob a batuta de Vitorino tentará produzir um relatório de auto-avaliação pouco menos do que excepcional, a verdade é que a educação continua a ser uma prioridade para o desenvolvimento do país.

Cabe aos professores, e aos partidos que querem propor uma alternativa de políticas e de governo, manter a educação, a escola pública e os seus problemas na agenda mediática e política.

É por isso que importa ir registando, e denunciando, as contradições entre forma e conteúdo no discurso dos responsáveis rosinhas. Como, por exemplo, as seguintes afirmações:

O que isto indicia é que a máquina eleitoral socialista está perante uma verdadeira quadratura do círculo. Na educação como nas restantes políticas. Por um lado precisa desesperadamente de convencer os votantes fiéis ao ideário de um PS que já não existe (que são cada vez em menor número)  de que não devem mudar de voto. Por outro precisa de convencer os nostálgicos do autoritarismo e do homem providencial de que nada de essencial vai mudar, depois de retirada a cosmética indispensável para ficar bem nas fotografias da campanha.

Os exemplos de alguns dos representates desta última categoria passeiam-se pelas televisões, pelas rádios e pelos jornais.

Ainda ontem João Marcelino, no DN, dava o mote: «Se este Governo deixar cair algumas das suas bandeiras, com a das escolas à cabeça (e ver-se-á o que sai do programa de Vitorino e da campanha que se seguirá ao texto), muito mais depressa perderá a confiança de quem nele ainda confia do que retomará o apoio de quem dele já se afastou.»

E hoje, em editorial do mesmo jornal, Alberto Gonçalves acrescentava: «A José Sócrates exige-se que mantenha a determinação e que seja coerente com aquilo que tem dito, em vez de ceder a interesses eleitoralistas como parece estar a acontecer nos últimos dias. Será congelar em três meses reformas e projectos pelos quais foram pedidos sacrifícios nos últimos quatro anos. Adiar decisões que são irreversíveis só contribuem para adiar o País.»