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Da leitura do comunicado do PGR não se pode confirmar a “estória” que nos foi contada pelos ministros Augusto Santos Silva e Vieira da Silva, ambos pertencentes ao “inner circle” de Pinto de Sousa.

De facto, ao contrário do que afirmou Santos Silva, não se confirma a existência de nenhuma k7 – existem sim CD’s – pelo que a “estória” das 52 k7s não tem fundamento. Do mesmo modo, a existência de 6 escutas transcritas em que intervém o 1º ministro (ponto 2º), a que se somam 5 conversações/comunicações que respeitam ao 1º ministro, num lote de 146 (ponto 11º), não abona em favor da tese da espionagem política denunciada por Vieira da Silva.

O que fica de tudo isto, para um cidadão que se interessa pela coisa pública, que lê jornais, ouve rádio e vê televisão, é que o poder legislativo (fortaleza inexpugnável em que se entrincheiram os donos do regime) vai tecendo uma teia imensa em que se torna quase impossível ao poder judicial agir sobre o crime de colarinho branco.

É que há sempre uma palavra ou expressão suficientemente ambígua para que os poderosos possam escapar.

Ao que parece, de acordo com o que entendi da decisão do STJ, mesmo que por mero acaso um dos três titulares dos cargos mais elevados na hierarquia do Estado seja apanhado acidentalmente a encomendar uma acção criminosa a terceiros, o facto de a escuta não ter sido autorizada previamente faz com que, à luz da justiça, essa encomenda nunca tenha existido.

Aparentemente, enquanto investido num dos mais altos cargos da nação, qualquer António, Manuel ou Etelvino pode premeditar qualquer crime e comunicá-lo a quem entender, sem que a justiça possa intervir.

Fica, no entanto, uma dúvida: A ser verdade que em alguma das conversas interceptadas entre Armando Vara e Pinto de Sousa o 2º solicitou ao 1º um empenho com vista a interferir nas decisões de gestão e editoriais de uma estação de televisão, fê-lo como o cidadão Pinto de Sousa, ou fê-lo enquanto chefe do governo? É que, me parece, isso devia fazer alguma diferença para o sistema de justiça.

Vai aí pelos jornais, rádios e televisões, mas também pelos blogues e salas de professores, um debate interessantíssimo sobre o significado a atribuir à disputa dialéctica entre suspender o simplex ou substituí-lo por um modelo credível, coerente e justo de ADD.

Tudo porque o PSD, de acordo com o seu princípio genético de partido do “arco-da-governabilidade” e subsidiário do pensamento produzido pelos “pensadores” de Bruxelas (como o seu gémeo PS), decidiu utilizar o termo substituir, em vez de suspender, no projecto de resolução que apresentou ao parlamento. Tudo isto me faz recordar o celebérrimo episódio da vírgula desaparecida num qualquer decreto e que foi tema de aceso debate entre a classe política, há um par de anos atrás.

Não querendo que me tomem por iluminado, e pedindo antecipadamente desculpa a quem me lê pela irrelevância desta prosa para o debate que decorre, quero chamar a atenção para a dimensão simbólica do discurso na condução da política pública.

Na legislatura anterior, por força da maioria absoluta que detinha (e das condições em que foi obtida), o PS adoptou uma postura de governação “hard”, assente numa visão weberiana do poder em que o Estado detém o monopólio do exercício da violência legítima.

Foi assim que, fazendo uso da legislação enquanto factor de constrangimento jurídico, mas também do dinheiro (por via do orçamento) como meio de redistribuição da riqueza, o PS impôs a vontade do seu líder e do seu “inner circle”.

Desta vez, não possuindo já os mesmos meios (maioria absoluta, apoio incondicional do PR e dos fazedores de opinião), o PS tem que recorrer a forma mais soft de governação, que passa pelo convencimento de que tudo muda, mesmo quando tudo fica na mesma. Ou o seu contrário.

Como é evidente, apesar de derrotado em Setembro, o PSD continua a ver-se como uma partido do “arco-governativo”, i.e., um partido de poder. Nessas circunstâncias é natural que não esteja interessado em fazer hoje nada que o coloque em “maus lençóis” quando, daqui a 2, 4 ou 8 anos voltar ao poder.

É à luz deste entendimento que se torna necessário analisar o por quê de “substituir” e não “suspender”. Tal como convém não embandeirar em arco com o fim do título para os titulares. É que isso pode não significar o fim da divisão da carreira.

Também por tudo isto é bom reler as declarações de Mário Nogueira ao Jornal da FENPROF, até porque, lendo o que o próprio afirma, evitamos ser enganados por interpretações abusivas de quem tem interesse em desvirtuar a suas palavras:

«JF: Pois, mas a Ministra da Educação disse que o primeiro ciclo avaliativo não seria suspenso e prosseguiria até ao fim…

MN: Sim, mas isso é inevitável. Na verdade, o primeiro ciclo avaliativo não pode ser suspenso porque já terminou, tendo dado lugar ao segundo que começou com o ano lectivo. Como é óbvio, não se pode suspender o que já não acontece, logo, o que pode ser suspenso – e deve, urgentemente – é este ciclo que já decorre, com algumas escolas a exigirem, novamente, os objectivos individuais… onde isso acontece, apelamos aos colegas que os não entreguem, agora por razões acrescidas de coerência.

Relativamente àquele primeiro ciclo, o que decorre até Dezembro é um período já não de avaliação, mas de encerramento dos processos burocráticos e, eventualmente, jurídicos: preenchimento das últimas fichas, atribuição e fixação das menções, possibilidade de reclamação e recurso… daí que repita: o que poderá e deverá ser suspenso é o segundo ciclo, sendo interrompido de imediato. O primeiro, quanto muito, poderia ser anulado.»

Na entrada anterior critiquei a posição que foi assumida pelos blogues de professores que mais se reclamaram “da independência partidária” em relação às eleições de Setembro.

Correu na Internet, primeiro pelas listas de mailing e depois em muitos blogues de professores, a ideia de que bastaria “derrotar” o PS para que todos os nossos “problemas” fossem resolvidos.

O lema «Vota à esquerda ou à direita, mas não votes no PS» fez o seu caminho e teve defensores que estão registados.

Ao contrário do que acha o PG, não sou nem me considero “um iluminado”. Limito-me a escrever e dizer em voz alta o que penso e em que acredito, mesmo quando isso é politicamente incorrecto ou se pode traduzir em prejuízo para a minha imagem e/ou posição.

A minha opção foi sempre clara. Mais do que derrotar o PS, o que me move e considero verdadeiramente importante é derrotar um conjunto de políticas que são desenhadas, difundidas e preparadas por tecnocratas sem rosto, não eleitos nem sujeitos a sufrágio pelos cidadãos, e que se apropriaram dos partidos (em particular os do centro político), esvaziando-os de ideias, princípios e valores.

Embarcar, como muitos professores embarcaram, na conversa de que o erro era apenas de casting, e que substituindo o PS pelos partidos à sua direita tudo ficaria resolvido, foi de uma ingenuidade total. A menos que apenas se tenha destinado a esconder e mascarar uma opção ideológica e partidária a que cada um tinha e tem direito.

O que se passou nestes últimos dias, com o aproximar de posições entre PSD e PS, é natural e previsível.

As diferenças entre os dois, podendo juntar-se-lhes o CDS, são de detalhe e oportunidade. O conceito de partidos do “arco governativo”, há muito cunhado na gíria política, tem a sua raiz na dependência e na formatação desses partidos pelo conhecimento que circula nas instâncias de regulação supra-nacional, em particular pelo conhecimento produzido pelos peritos da UE, do BCE, do FMI e do Banco Mundial.

Em relação à educação, PS, PSD e CDS pensam o que vem escrito nos relatórios da OCDE e muitas vezes apenas nos resumos desses relatórios, que são produzidos por alguns “peritos” sem formação política, ideológica ou filosófica. Veja-se a forma como são “lidos” os relatórios PISA, quando frequentemente são “esquecidos” os dados de contexto que também contém.

Por tudo isso, mais importante do que distinguir entre os professores quem é independente, iluminado, ou formatado, interessa que se aprendam as lições. Foi isso que desejei (e continuo a desejar) ao escrever este post.

Claro que fico satisfeito quando verifico que a História não ensina só que o tempo é um “grande escultor”, porque «também os peões podem condicionar muito o desenrolar do jogo».

É preciso é que os peões saibam manter a coesão e não sigam os “comandantes” errados, sob pena de caminharem alegremente para o suicídio colectivo.

«Agora é tarde, os bandidos tomaram conta do castelo»

Este é um aforismo que costumo usar, em ar de brincadeira, quando confronto os amigos com as consequências de um acto praticado e que não permite recuo. Lembrei-me dele ao ler as notícias disponíveis aqui, aqui e aqui, ao mesmo tempo que as pude confrontar com a indignação de blogues que antes das eleições concordavam com o apelo absurdo do – «Vota à direita ou vota à esquerda, mas não votes no PS». Ao ler posts como este, este, este, ou este, a única coisa que se espera é que os seus autores tenham aprendido a lição.

E que quando, daqui a menos tempo do que alguns possam supor, for necessário voltar à rua, não se ponham com divagações e percebam que existe, de facto, uma organização que é capaz de conduzir a luta de forma coerente e eficaz. Mas também ela precisa da mobilização de todos e não só de alguns, enquanto os outros fazem contravapor.

Ao abrir as páginas de alguns dos principais diários que circulam no país, o cidadão anónimo só pode ter um desejo – acordar num outro ponto do globo, onde ninguém saiba que ele é português.

Há vários anos que vai sabendo de uma mão cheia de “trapalhadas”, sempre mal explicadas, a que o nome do 1º ministro aparece regularmente associado.

De todos esses casos não se conhecem quaisquer consequências. Seja para os alegados envolvidos nas ditas “trapalhadas”, seja para as putativas forças ocultas que desencadeiam alegadas campanhas negras contra o 1º ministro e os que lhe são próximos. Há anos que, nestes casos, a culpa continua a morrer solteira, seja ela noiva de quem for.

A última “trapalhada” envolve umas escutas a um amigo de longa data do 1º ministro. Ao que contam os jornais, e Pinto de Sousa confirmou, esse amigo escutado pelas autoridades tinha por hábito falar com o 1º ministro. Ao que se sabe, foi dessa forma que este último também foi escutado pelos investigadores.

Do que foi escutado, alguma(s) parte(s) terá(ão) tido suficiente relevância para que o PGR tenha sentido necessidade de enviar os materiais para o único órgão que pode validar escutas às três mais altas figuras do Estado. Curiosamente, em todas as anteriores “trapalhadas”, nunca o PGR tinha sentido necessidade de recorrer ao STJ, avançando invariavelmente com declarações públicas (ele ou algum procurador-adjunto) afirmando que o 1º ministro não tinha qualquer envolvimento nas matérias em investigação. Desta vez isso não aconteceu.

Ontem, começou então um curioso contra-ataque.

Ao longo de sexta-feira, em declarações sucessivas, Pinto de Sousa, Vieira da Silva e Santos Silva prestaram declarações públicas, que instalam na opinião pública uma dúvida insidiosa sobre as motivações que estarão por trás das notícias vindas a público. A que acresce a insinuação da existência de uma agenda política persecutória do 1º ministro, por parte dos titulares da investigação penal portuguesa.

Estando o processo em segredo de justiça, e uma vez que a barreira de fogo do gabinete de crise do PS é dirigida contra quem viola esse segredo de justiça, é no mínimo estranho que Vieira da Silva fale de espionagem política e Santos Silva de 52 cassetes em 4 meses de escutas.

Dado este primeiro passo, cabe hoje aos editorialistas dos jornais oficiosos do partido do governo colocar mais alguma argamassa na história, nem que para isso tenham que deixar metade da verdade de fora.

O eterno Marcelino aproveita o facto de em Inglaterra ter sido arquivado o processo Freeport, exclusivamente porque os investigadores não possuem meios para aprofundar o conhecimento sobre o que se terá passado, para insinuar que a tese da campanha negra já vem de longe. E depois de falar de dois exércitos que serão utilizados pelas duas mais altas figuras do Estado para se combaterem, tem o topete de se apresentar como não alinhado nessa guerra, em que sistematicamente utiliza meias verdades para defender o PS e outras meias para acusar a oposição.

Já o “júnior” Paulo Ferreira vai directo ao assunto e ataca ferozmente o populismo da oposição, que acusa de poder estar a par do teor das escutas, omitindo que as afirmações de ontem dos responsáveis do PS poderem indiciar o mesmo conhecimento.

É por tudo isto que o cidadão comum e anónimo tem cada vez mais dificuldade em respirar este ar tão poluído por gente que não inspira grande confiança.

Consegui resistir estóicos 20 minutos à entrevista de Isabel Alçada na RTP1.

Para lá de um enorme vazio conceptual, disfarçado com sorrisos, esgares e trejeitos que devem ser extremamente úteis num qualquer chá-canasta, apenas retive uma afirmação que acho importante registar para memória futura: durante o actual ano lectivo haverá um novo modelo de avaliação.

Desta afirmação resulta que o simplex 14/2009 e o progenitor que lhe deu origem – 2/2008 – terão apenas algumas semanas (meses) de vida. Isso é bom e deve ficar registado, sobretudo para aqueles directores “valterpedreirianos” que já andam atarefados a agendar entregas de objectivos e observação de aulas.

Tirando este aspecto, que reputo de muito importante, à medida que Isabel Alçada ia falando e que Judite de Sousa parecia perceber muito mais dos problemas que se colocam à ministra da educação do que a própria ministra, só me vinha à cabeça a figura de Lili Caneças e a sua famosa frase:

Estar viva é o contrário de estar morta.

Deve ter sido por isso que não aguentei a entrevista até ao fim. É que não me parece boa ideia ter uma “socialaite” à frente do ministério em que trabalho.

Exmo. Sr.

Presidente da Mesa da Assembleia Geral

Em reunião realizada no dia 9 de Novembro de 2009, na sede do SPGL, convocada por V. Exa. para promover a conciliação de propostas de revisão dos estatutos e preparar a Assembleia Geral Extraordinária de dia 10 de Dezembro de 2009, tive ocasião de expressar a minha reserva em relação à forma como V. Exa. está a dirigir este processo.

Constatei que o Sr. Presidente da MAG terá ficado surpreendido, quiçá ofendido, com o facto de, em minha opinião, não estar assegurado um tratamento equitativo de todas as propostas, no processo de votação que será dirigido pela MAG.

Considerando que poderei não ter sido suficientemente claro na exposição dos motivos que me levaram a questionar a isenção e a equidade de tratamento de todos os proponentes, no que à metodologia de votação das propostas diz respeito, venho dirigir-me a V. Exa., de forma respeitosa mas frontal, no sentido de tentar esclarecer algumas dúvidas metodológicas e existenciais.

Admitindo sem reservas a probidade e dedicação de todos os membros de todos os órgãos sociais do SPGL, permito-me no entanto chamar a atenção para os seguintes factos:

  • As eleições para os corpos sociais do SPGL realizaram-se em Maio deste ano, ou seja, há cerca de seis meses;
  • De acordo com os estatutos em vigor, no seu artigo 76º, a Mesa da Assembleia Geral é eleita conjunta­mente com a Direcção Central por voto directo, secreto e universal;
  • O que significa que a MAG a que V. Exa. preside foi eleita com o mesmo programa eleitoral e sob o mesmo lema que a Direcção Central;
  • Dando cumprimento ao respectivo programa eleitoral, a MAG convocou para dia 10 de Dezembro de 2009 uma Assembleia Geral Extraordinária, em que se realizarão duas votações de grande importância para a vida do SPGL;
  • No exercício dos seus direitos estatutários, os sócios que em Maio tinham constituído listas concorrentes aos corpos sociais do SPGL decidiram agora apresentar propostas de revisão dos Estatutos, constatando-se que a identificação das propostas que irão ser votadas em AGE, em Dezembro, é exactamente igual à das listas que concorreram às eleições de Maio;
  • À Lista A de Maio corresponde agora a Proposta A; à Lista B de Maio corresponde agora a Proposta B; à Lista C de Maio corresponde agora a Proposta C; e à Lista D de Maio corresponde agora a Proposta D;
  • Acontece que a Lista A, tendo vencido sem contestação as eleições de Maio, elegeu a Direcção Central e a Mesa da Assembleia Geral, sob o mesmo programa e lema, o que faz supor que os membros da Mesa da Assembleia Geral partilham da mesma visão que a Direcção central sobre o futuro do SPGL. Admitir que não partilham essa visão tornaria absurda a sua participação no mesmo projecto eleitoral, realizado há menos de seis meses;
  • É com base nesta evidência que se torna difícil entender que a MAG faça finca-pé na não partilha da condução do processo de votação das propostas de revisão dos estatutos e da permanência ou não na Confederação de Quadros com os representantes das restantes propostas;

Não se pretende sugerir que haja uma deliberada intenção de favorecer a Direcção Central, constituída por sócios que partilham a mesma visão e entendimento do futuro do sindicato que os membros da MAG.

No entanto, para ilustrar a perplexidade que me assalta recorrerei à seguinte analogia:

Façamos o exercício de transposição deste processo de votação dos estatutos e de referendo sobre a permanência na Confederação de Quadros no nosso sindicato, para o nível do país:

Imaginemos um qualquer processo de consulta popular que envolva a realização de uma votação.

Imaginemos que, sobre as questões da consulta, cada um dos partidos existentes apresenta a sua proposta.

Imaginemos ainda que, ao invés de existir uma Comissão Nacional de Eleições, à qual compete organizar todos os processos eleitorais e referendários, existia um órgão que era eleito simultaneamente com a eleição dos deputados à AR e, ainda por cima, era constituído exclusivamente por membros da lista mais votada.

Nessas condições consideraria V. Exa. estar garantida a igualdade de tratamento a todos os concorrentes num processo de votação?

Não precisa responder, Sr. Presidente da Mesa da Assembleia Geral do SPGL, pois acredito que o seu civismo e apego à justiça só lhe permitiriam uma resposta.

Receba os meus cumprimentos

Francisco José Santana Nunes dos Santos

Sócio n.º 32628

 

Este texto foi enviado, com pedido de publicação, aos órgãos de comunicação social falada e escrita, aos responsáveis de diversos blogues de professores, em especial aos que têm um maior fluxo de visitantes e aos responsáveis dos movimentos de professores.

Poeira para os olhos

Vergonha.

É esse o sentimento que me assalta, quando leio e oiço as notícias sobre mais uma campanha negra um escândalo em que o nome de Pinto de Sousa volta a ser pronunciado.

Vergonha e impotência, face ao monstruoso jogo de sombras chinesas com que as mais altas instâncias da justiça portuguesa envolvem a (des)informação sobre o que pode ter-se passado.

Ao ler a notícia do Expresso Online, e confrontando-a com as declarações do Sr. Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e do Sr. Procurador Geral da República, a metáfora que me ocorre é a de “Matrix”.

Para quem não viu o filme original, e as suas sequelas, “Matrix” é um programa informático que cria e gera um mundo virtual, destinado a controlar os humanos, fazendo-os acreditar que vivem num mundo “normal”, quando as suas existências apenas se destinam a garantir a energia necessária ao funcionamento das máquinas que os governam.

Qual “Matrix”, os portugueses estão mergulhados num quotidiano delirante(*) em que não se sabe se os criminosos são os que combinam, ao telefone, esquemas engenhosos para defraudar o erário público,  ou se são as autoridades que interceptam essas conversas.

Revolta.

É o outro sentimento que fica. Sobretudo quando se percebe que existem fugas de informação selectivas, destinadas a introduzir entropia no trabalho dos investigadores.

Porque, a ser verdade o que transparece na comunicação social, os operacionais no terreno souberam, durante vários meses, desenvolver uma investigação eficiente, sem que houvesse a mais pequena fuga de informação (só assim poderiam ter visto, ouvido e registado tudo o que se sabe, para além do que não se sabe).

E é quando a informação chega aos mais altos níveis da hierarquia do ministério público (onde os cargos são exercidos por nomeação) que a comunicação social começa a ser inundada com fugas que, mais do que comprometer esta ou aquela individualidade, tem um efeito de descredibilização da investigação judicial e do sistema de justiça como um todo.

Dito isto, resta tirar a conclusão: a quem interessa descredibilizar a justiça e os seus agentes, em especial os investigadores?

A resposta parece-me óbvia – a todos os que sabem que têm o dever de responder perante essa mesma justiça.

(*) Quotidiano Delirante é o título de um extraordinário trabalho do autor de BD Miguelanxo Prado, em que o absurdo se confunde com episódios que podem ocorrer no quotidiano de um qualquer cidadão. Recomendo vivamente, como forma de aliviar o absurdo dos nossos próprios quotidianos.

 

Quotidiano_delirante_tomo_1

Neste últimos dias vários colegas e amigos me têm perguntado o que penso sobre o resultado das negociações, que se vão iniciar amanhã, entre o ME e as duas grandes federações sindicais de professores – FENPROF e FNE.

A minha resposta tem sido invariavelmente que não me parece que venha a haver um entendimento rápido e total, mas que o governo está disposto a não insistir na aplicação do DR 14/2009 e a eliminar a categoria de professor-titular. Tudo o resto (e é o fundamental) só será resolúvel em sede de debate parlamentar.

Dito isto, importa explicitar os conteúdos desta resposta.

O DR 14/2009 (prolongamento por um ano do simplex) constitui a grande janela de oportunidade para Isabel Alçada aparecer como a “fabricante de pontes” com os professores. Trata-se de uma “coisa” sem pés nem cabeça, fruto da incompetência e teimosia de uma equipa de má memória. A actual ME irá agitar a bandeira da sua suspensão, como prova de boa vontade negocial, até porque está consciente da sua inexequibilidade.

Quanto ao “título” dos titulares, não passa disso mesmo: um título sem valor, nem significado. Como tal poderá ser abandonado, o que servirá para apaziguar a quase totalidade dos professores (exceptuam-se uns quantos vaidosos, a quem o “título” subiu à cabeça). Ao mesmo tempo permitirá o alargamento do campo de recrutamento, para o exercício de cargos de gestão intermédia, a todos os professores que já tenham atingido um escalão a definir (por mim aposto no 8º, embora não tenha dados empíricos que me permitam afirmar que será esse o patamar de diferenciação).

Quanto ao resto Isabel Alçada não terá autorização para ceder, nem mais um milímetro. O resto é a suspensão dos efeitos dos muito bons e excelentes para efeitos de concursos, a introdução de uma forma (prova) de selecção para acesso aos escalões mais elevados da carreira, o fim das quotas para a avaliação e para a progressão, para além de todos os aspectos relacionados com a organização dos horários de trabalho, a precarização dos vínculos laborais e o modelo de gestão.

Destes “restos”, alguns serão solucionados de acordo com as reivindicações dos professores e dos sindicatos, através da intervenção concertada dos partidos da oposição. Será o caso das quotas e dos efeitos das classificações atribuídas no 1º ciclo de avaliação.  Mas isso demorará ainda algum tempo.

Já os aspectos relacionados com a precarização dos vínculos laborais, os horários de trabalho e a definição das componentes lectiva e não lectiva, ou o modelo de gestão e aumento da influência dos municípios no quotidiano escolar, só poderão vir a ser alterados com recurso a muita persistência, unidade e luta dos professores, sob a orientação de sindicatos fortes e intimamente ligados à escola.

Na verdade, a convergência de interesses e visões que aproximam PS, PSD e CDS, ligadas a uma concepção da escola como um instrumento ao serviço do capital humano e da globalização neo-liberal, não deixa grande margem de manobra a quem entende a escola como um local de cultura ao serviço das comunidades, para formar cidadãos que sejam capazes de contribuir para uma sociedade mais justa, mais equitativa e com maior igualdade na diversidade.

Por tudo isso, sabendo que nos próximos dias conseguiremos alguns ganhos, é fundamental que os professores continuem mobilizados e prontos para mostrar a unidade necessária à continuidade da luta. Sem qualquer receio das palavras.

Essencial ou acessório?

A propósito das negociações entre o governo e os sindicatos de professores, o Ramiro sugere que nos concentremos no essencial, abdicando do acessório.

Como essencial, Ramiro Marques define a defesa do fim da divisão da carreira entre titulares e professores. Como acessório, pensa que se podem aceitar os efeitos do simplex, nomeadamente os que decorrem da atribuição de notações de Muito Bom e Excelente.

Mais uma vez concordo com o Miguel Pinto, não me parecendo de modo nenhum acessório que se aceite o resultado de um processo cheio de trapaças e que, a ter vencimento, apenas beneficiaria governantes autoritários e intransigentes, bem como aqueles professores que não souberam ser solidários e aproveitaram a oportunidade para beneficiar das quotas contra as quais todos lutámos.

Também o Paulo Guinote, num post comemorativo da manifestação dos 120.000, se refere ao “acessório”: «Mas também é preciso que todos ajudemos ou, se não formos todos, pelo menos que a larga maioria saiba distinguir o essencial do acessório.»

Não consigo perceber claramente qual a interpretação que ele faz do que é essencial ou acessório.

Por mim não me parece nada acessório que se aceite que, por efeito de um modelo de avaliação que todos combatemos por o acharmos injusto, iníquo, desajustado das necessidades do sistema, sem qualidade científico-pedagógica e apenas imposto por teimosia e má-fé, venham agora alguns a beneficiar de pontuações extra, em concursos de colocação de professores, ultrapassando dessa forma quem não se vendeu ao inimigo.

Mas isso sou eu que estou no topo da carreira, e que se um dia voltasse a concorrer a outra escola seria para me afastar de casa, já que onde estou apenas tenho que atravessar duas ruas a pé.

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