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Os últimos meses têm demonstrado uma clara unidade na acção por parte da quase totalidade dos professores.

Todos sabemos que esta unidade não apaga as diferenças que necessariamente existem entre 140.000 indivíduos, cujos interesses pessoais, filiações políticas e ideológicas, formações académicas e tantos outros aspectos dos seus percursos individuais são diversos e por vezes antagónicos.

No entanto, para surpresa de quase todos, os professores foram capazes de deixar temporariamente de lado essas diferenças e, pela primeira vez em muitos anos, identificar claramente o que os une e tudo o que é necessário fazer para alcançar o objectivo definido.

Neste momento está finalmente claro para todos que a defesa da Escola Pública Republicana e Laica, que garanta o acesso de todos os cidadãos ao bem público educativo e que assente na dignificação da profissão docente e na autonomia organizacional da escola, passa pelo derrube das políticas definidas pelo actual governo, as quais têm por base orientações das instâncias internacionais, que atribuem ao nosso país um papel subordinado no contexto da globalização.

As políticas de educação que o governo Pinto de Sousa tem aplicado, seguindo e aprofundando as orientações que vinham já dos governos anteriores, visam desvalorizar o serviço educativo prestado pelo Estado, tornando-o mais barato e formando mão-de-obra barata para as empresas. Em simultâneo preparam-se as condições para a criação de um mercado lucrativo, destinado às elites, e onde os grupos económicos encontrarão campo para investimentos seguros.

É por isso que se torna imprescindível o aprofundamento da acção colectiva dos professores contra estas políticas. Contra o ECD, a nova gestão e o modelo de avaliação que lhes está subjacente e sem os quais a “escola para os pobrezinhos” não sobreviverá. Mas também contra o modelo de Ensino Especial que deixa de fora milhares de alunos carenciados, contra o estatuto do aluno que não promove o empenho e o interesse pelas aprendizagens, e contra o sub-financiamento da educação que continua a obrigar inúmeras escolas a funcionar em horários duplos e sem espaços de trabalho condigno para alunos e professores.

Derrubar estas políticas é tarefa árdua e prolongada. Temos que estar conscientes que isso não será possível sem substituir os actores que as desenharam e tentam pôr em prática. Tal como temos que perceber que isso envolve riscos e custos para cada um de nós.

O colectivo dos professores conseguiu, neste último ano, um conjunto significativo de vitórias: 100.000 em 8 de Março, 120.000 em 8 de Novembro e mais de 130.000 em 3 de Dezembro. É obra!

Mas esta obra é fruto do trabalho, do empenho e da responsabilidade individual de cada um dos 130.000. Alguns pegaram nas bandeiras; outros escolheram as palavras de ordem; outros ainda trataram da logística; mas foi preciso que cada um dos 130.000 se tivesse responsabilizado por participar, para que a vitória tivesse tido a dimensão retumbante que teve.

Se recordo e destaco a importância do individual, neste momento de exaltação de uma acção colectiva, é porque os próximos passos vão envolver mais riscos, mais esforço e maior determinação de cada um de nós. Já todos percebemos que, embora nos afecte o orçamento familiar e prejudique o descanso merecido, até nem é tão difícil assim participar numa manifestação no meio da multidão. Também percebemos que, apesar de nos “entrar no bolso”, participar numa greve justa reforça a nossa auto-estima e a confiança nos colegas com quem trabalhamos no dia a dia.

Só que o próximo passo exige ainda mais coragem e determinação. Agora é chegada a hora de dizer, olhos nos olhos aos nossos avaliadores: «Não vou entregar os meus objectivos individuais porque me recuso a ser classificado por este modelo, seja ele mais ou menos simplificado. Não vou entregar os meus objectivos individuais porque não quero pactuar com a farsa que o governo está a pôr em prática, só para “não perder a face”. Não vou entregar os meus objectivos individuais, porque a educação das crianças e jovens, que são meus alunos, é um trabalho do colectivo dos professores e os objectivos de promoção do sucesso educativo têm que ser da organização e não do indivíduo.»

Esta será a derradeira machadada que temos que dar nestas políticas. Mas para o conseguirmos, mais uma vez dependemos do empenhamento e da responsabilidade individual. Cada um de nós terá certamente motivos muito atendíveis para recear dizer NÃO. Uns porque temem não ver renovado o contrato, outros porque talvez não possam concorrer para mais perto de casa, outros porque ficarão mais um ano no mesmo escalão/índice salarial, outros ainda porque poderão perder títulos e/ou cargos.

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É preciso que cada um se confronte consigo próprio e, mais uma vez, na hora de pesar os prós e os contras de optar entre o SIM e o NÃO, que cada um saiba que da soma dessas decisões individuais dependerá a nossa vitória, ou a derrota daquilo em que acreditamos.