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Como expliquei há uns dias, fui à manifestação em Lisboa por concordar com as palavras de ordem anunciadas no cartaz que a convocava:

  • Democracia Representativa;
  • Transparência nas Decisões Políticas;
  • Direito ao Trabalho com Direitos, à Habitação, à Educação, à Saúde e à Cultura;
  • Contra a Privatização dos Recursos Naturais e Sectores Estratégicos.

                       

Não sou capaz de me pronunciar sobre o número de manifestantes, mas tenho a convicção de que nunca, depois do verão de 75, o largo frente à Assembleia da República esteve ocupado por tanta gente, durante tanto tempo. Ouvi vários manifestantes, entre os quais alguns emigrantes mais velhos do que eu, afirmarem que havia ali mais gente do que num estádio de futebol em dia de derbi (o que apontaria para mais de 50/60 mil. Não me parece, no entanto, que isso seja o fundamental. Porque o que verdadeiramente contou, no desfile e manifestação em frente à AR, foi a determinação dos presentes em não se acomodarem às inevitabilidades.

                                

A criatividade e espontaneidade das palavras de ordem e das cantigas entoadas por milhares de vozes foi entusiasmante, tal como foi comovente ouvir e ver jovens nascidos depois da revolução, em perfeita comunhão com gente mais velha, gritarem bem alto “O Povo Unido Jamais Será Vencido” e cantarem a uma só voz “Troika Não, Troika Não, Troika Não”.

Desta vez houve uma clarificação de posições e os participantes mostraram uma consciência política que impediu o folclore e inconsequência do M12M. Se por lá apareceu alguém apenas interessado em criticar os actos dos governantes, sem criticar as políticas e a ideologia que as enformam, rapidamente se deu conta de que estava no local errado e voltou para casa refugiando-se em memórias míticas de narrativas descontextualizadas da acção pública em que um dia se envolveu.

Para fixar para a posteridade fica o momento em que o povo, incentivado por um jovem indignado, desempregado, mas com uma aguda consciência social e de classe, ultrapassou o medo e voltou a ocupar as escadarias da Assembleia da República. Nesse momento de tensão, que ali se viveu, ficaram claras algumas ideias:

  • É possível ultrapassar o medo e ganhar a batalha;
  • Há, no seio das forças policiais, muitos agentes que sabem qual o seu lugar nesta luta de classes; daí a calma e contenção na hora em que ocorreu a tomada das escadarias, que poderia ter sido o início de confrontos que a esta hora muitos lamentariam;
  • Sente-se um desejo de unidade na acção que permita ultrapassar divergências estratégicas face a um inimigo comum e poderoso;
  • O Povo Unido Não Será Vencido;
Um último registo para confortar todos quantos imaginam que a polícia não sabe cumprir o seu papel da apoio aos poderosos. Fiquem descansados, que todos quantos passaram ontem pelo largo fronteiro à Assembleia da República fomos convenientemente fotografados e filmados por um diligente agente, que nem se incomodou em que o seu trabalho ficasse gravado para memória futura.
BIG BROTHER WAS WATCHING US
                  
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