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O José Luiz Sarmento reproduz e recria, no seu blogue, um texto bastante interessante que o Inquisidor publicou n’O Cartel.

Trata-se, sem dúvida, de um dos temas mais importantes no debate sobre os caminhos da Educação e da Escola Pública, que os professores portugueses têm que impôr às agendas partidárias e mediáticas, sob pena de nada de essencial mudar, mesmo que haja alterações significativas no governo que vier a sair das eleições de Setembro.

Embora concorde com o relevo histórico que é dado à ligação entre a Escola Pública e a Escola Republicana,  nomeadamente no que diz respeito à separação entre o ensino confessional do antigo regime e o ensino laico da República, já tenho mais dúvidas no que se refere à necessidade de a Escola Pública do séc. XXI ter que respeitar integralmente o paradigma republicano enunciado pelo Inquisidor.

As minhas dúvidas aumentam quanto à consequência que JLS retira desse paradigma, quando afirma «Destes três conceitos ressalta a seguinte consequência: o lugar natural da escola é a classe, a aula. A instrução supõe um local de abrigo dos barulhos do mundo e no qual os saberes podem ser empregues em virtude dos seus princípios, segundo a ordem racional.»

Até pode ser que a minha discordância se fique a dever a uma deficiente clarificação de conceitos, mas custa-me aceitar a afirmação peremptória de que o lugar natural da escola é a classe, a aula.

Sobretudo porque me parece que essa afirmação constitui o sustentáculo de uma concepção de normalização dos alunos que acaba por traduzir-se em exclusão de quase todos. A busca de um aluno médio, para o qual a aula daquela classe funciona bem, exclui o cábula mas também o aluno-esponja, que tudo absorve e que a breve trecho se desinteressa por não se sentir desafiado e incentivado a usar a sua autonomia. Aliás, a própria ideia de um aluno normal da Escola da República é algo que não se adequa à Escola de Massas que tem que ser a Escola Pública do séc. XXI. Mas melhor do que eu, darei a voz a Daniel Pennac, na obra que já referi noutro post – «Mágoas da Escola»:

“A ideia de que é possível ensinar sem dificuldade deve-se a uma representação etérea do aluno. A sabedoria pedagógica deveria representar-nos o cábula como um aluno tão normal quanto possível: o que justifica plenamente a função de professor uma vez que temos tudo a ensinar-lhe, a começar pela própria necessidade de aprender!

Ora, não é o que se passa. Desde a noite dos tempos escolares, o aluno considerado normal é o aluno que oferece menos resistência ao ensino, o que não duvida da nossa sabedoria e não põe à prova a nossa competência, o aluno antecipadamente conquistado, dotado de uma compreensão imediata, susceptível de nos poupar a procura das vias de acesso à sua capacidade de compreender, um aluno naturalmente preocupado com a necessidade de aprender, que deixa de ser um aluno turbulento ou um adolescente com problemas durante a nossa hora de aula, um aluno convencido desde o berço de que deve controlar os desejos e as emoções pelo exercício da razão se não quiser viver numa selva de predadores, um aluno ciente de que a vida intelectual é uma fonte de prazeres que pode ser variada até ao infinito, requintada ao extremo, enquanto a maior parte dos nossos restantes prazeres está votada à monotonia da repetição ou ao desgaste do corpo, em suma, um aluno convicto de que o saber é a única solução: solução para a escravatura em que nos manteria a ignorância e consolação surpreendente para a nossa ontológica solidão.

É a imagem deste aluno ideal que se desenha no éter quando ouço proferir a frase: «Devo tudo à escola da República!» Não discuto a gratidão de quem a profere. «o meu pai era operário e devo tudo à escola da República!» Também não minimizo os méritos da escola. «Sou filho de imigrante e devo tudo à escola da República!»

Mas, é mais forte do que eu, quando ouço esta manifestação pública de gratidão, vejo desenrolar-se um filme – longa-metragem – à glória da escola, com certeza, mas sobretudo à da criança que soube compreender, desde a primeira hora do infantário, que a escola da República estava preparada para lhe garantir um futuro desde que fosse o aluno que a escola espera encontrar. E mal dos que não respondem a esta expectativa!”

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