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Por estes dias os jornais diários, sejam os publicados em papel, sejam os difundidos por rádio ou televisão, fazem-me lembrar os jornais desportivos no “defeso” do futebol.

Se estes últimos se dedicam a “descobrir” contratações, entradas e saídas de futebolistas dos principais clubes nacionais, os primeiros dedicam-se a “elaborar” sobre o que fará Cavaco Silva depois de esgotadas todas as possibilidades de empurrar com a barriga a nomeação de um governo que, efectivamente, possa governar com apoio parlamentar.

Esta proliferação de “cenaristas”, maioritariamente formados na “escola do professor Marcelo”, é a garantia de atracção de leitores e, potencialmente, de aumento das vendas. E uma eventual descredibilização dos “cronistas” e do jornal é compensada pela conhecida fraca memória dos portugueses, aliada à forma como reduzem a análise política a uma espécie de disputa clubística.

O mais recente desvario em torno do tema “posse de um governo” é o que se pode ler no Económico de hoje e é assinado por Helena Cristina Coelho e Catarina Duarte. As autoras dissertam sobre aquilo a que chamam um governo de transição, argumentando que o PR poderá dar posse a António Costa, exigindo-lhe que provoque eleições depois do próximo presidente estar em funções, de modo a “legitimar” nas urnas o apoio parlamentar maioritário que obteve através dos acordos, negociados e assinados com os partidos à esquerda do PS.

Com isto Cavaco Silva não deixaria Passos Coelho a assar em lume brando (parece que o PM rejeitado e demitido pela AR não gosta da ideia), não se arriscaria a ser novamente humilhado ao ver chumbado um segundo governo da sua autoria no espaço de dois meses e poderia alimentar a esperança de “correr com os comunistas do poder” daqui a uns meses, uma vez que a direita está convicta de que em 2016 ganharia com maioria absoluta.

Para sustentar tese tão fantasiosa, as autoras relembram que Cavaco Silva «jogou esta mesma cartada para tentar resolver a crise política do Verão de 2013, na sequência do pedido de demissão de Paulo Portas, propondo um acordo de médio prazo entre PSD, CDS e PS e prometendo em troca eleições antecipadas para Junho de 2014, aquando do final do programa de ajustamento». Nem se dão conta de que, em primeiro lugar ninguém lhe “deu cavaco” e, em segundo lugar, hoje nem dispõe do poder de condicionar a vontade dos líderes partidários porque, simplesmente, nem ele poderá dissolver a AR em 2016, nem existe garantia de que o PR que vier a ser eleito o queira fazer, nas condições descritas no artigo do económico.