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Mário Soares está a promover um encontro entre as forças de esquerda, para discutir como libertar Portugal da austeridade.

Trata-se de uma tentativa de se penitenciar perante a história, quando sente que o fim se aproxima, pelo trabalho consciente e denodado que teve para entregar o Portugal de Abril nos braços da contra-revolução.

Trata-se, também, de uma tentativa vã de branquear o papel que teve na entrega de Portugal à “Europa Connosco”, com que procurou criar as condições para impedir que o nosso país fosse governado à esquerda. Desiderato que logrou alcançar e que nos colocou onde estamos hoje: um país pobre, com muitos milhares de cidadãos tão pobres como nos tempos da ditadura; um país de emigrantes, que já não vão a salto mas que fogem à miséria e à forma obscena como são tratados pelos governantes; um país dependente do exterior e nas mãos das mesmas famílias monopolistas que detém o poder desde os tempos da monarquia liberal.

Tudo isto se passa num tempo em que se torna ainda mais claro que o PS é o Seguro da direita. Basta ver o que repetem, em coro, dirigentes de topo do PS, desde responsáveis da bancada parlamentar, até aos novos membros do secretariado eleito no recente congresso.

Correia de Campos aposta na facilidade de uma aliança com o CDS; Paulo Pedroso diz que acha improvável uma aliança à esquerda; Francisco Assis afirma que será mais fácil fazer uma aliança com a direita e aprecia o esforço de Portas para recentrar o CDS; Ricardo Gonçalves defende que se deve dar prioridade ao CDS para uma coligação; o vice-presidente do grupo parlamentar Fernando Jesus concorda com aqueles que dizem que o diálogo com o CDS é mais fácil; Manuel Alegre decreta, do alto da sua autoridade de socialista anti-fascista, que a esquerda não serve para nada, porque o PCP não quer entendimentos, o Bloco diz que sim mas não quer e o PS a mesma coisa.

Todo este arrazoado serve para esconder o facto, indesmentível, de que o PS sempre teve como objectivo supremo da sua intervenção política impedir que o PCP chegue ao governo do país: Desde a manifestação da Fonte Luminosa, até à aliança Soares/Freitas do Amaral; desde a adesão à CEE, até às alianças com o PSD e o CDS para derrubar os executivos municipais comunistas no Alentejo; desde as revisões da CRP até à aprovação do tratado orçamental.

É por tudo isto que a iniciativa de Mário Soares para o próximo dia 30 me faz lembrar o arrependimento tardio daquele ateu que, à beira da morte, pede insistentemente que lhe levem um padre para receber a extrema-unção.