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Há quinze dias atrás recebi, através da direção da minha escola, um convite para assistir a um debate sobre a educação, o alcance das atuais mudanças (alegadamente reformistas) e as estratégias de poder no campo educativo.

O debate estava estruturado em torno de dois painéis, cada um com dois oradores e um moderador, todos nomes sonantes no meio mediático ligado à educação.

Confesso que apenas um dos oradores me fez levantar e sair de casa hoje de manhã, não só porque é sempre um prazer ouvi-lo falar sobre a escola pública e a administração da coisa educativa, mas também por motivos de ordem pessoal que não vêm ao caso.

A sessão, com o título “A Educação na Encruzilhada de um Novo Paradigma”, constituiu uma agradável surpresa e acabou por se transformar numa manhã de sábado bem passada. Não porque os oradores se tenham superado e me tenham surpreendido com reflexões de grande profundidade, mas porque dei por mim num espaço muito agradável, com uma plateia de três a quatro centenas de pessoas – professores, pais, técnicos de educação – que de forma voluntária e de sorriso nos lábios se dispuseram a ouvir falar de um tema que é determinante para a qualidade da cidadania e para o futuro do país.

Tendo algumas dúvidas quanto ao “des”alinhamento político-ideológico da associação promotora do evento – Associação Viver-Sintra – não me custa reconhecer que a iniciativa teve mérito e a organização, em parceria com o Colégio Vasco da Gama, foi muito boa.

Já quanto ao debate, e sua substância, tudo decorreu nos limites das minhas expetativas.

Dois oradores – Professor João Barroso e Professor David Justino – com um discurso claro e focado no tema, deixando pistas de reflexão que me pareceram importantes e atuais, mesmo quando não concordo com os pontos de vista de um deles.

O primeiro chamando a atenção para o facto de que, apesar do trabalho insano de sucessivos ministros que tentaram mudar tudo na educação, o essencial permanece intocado há mais de um século. Esse intocado é o espaço central onde decorre o ato pedagógico – a sala de aula e a forma de ensinar – que permanece igual desde o século XIX – o professor ensina a muitos como se fossem só um.

O segundo refletindo sobre a possibilidade de os atores – professores, pais, autarquias, comunidade – agirem e ultrapassarem o atavismo de “esperar que a tutela tudo resolva”. Nesta sua proposta de proatividade David Justino tende a sobrevalorizar o papel da família e enfraquecer o papel do Estado como provedor da Educação, aspeto em que mais me distancio das suas opiniões. No entanto, não parece ser um adepto convicto da privatização, da municipalização, ou até da desregulação total do sistema.

Contrariamente a estes dois oradores, Marçal Grilo e Paulo Guinote apresentaram um discurso que só posso classificar como de conformismo e aceitação da “realidade”, sem qualquer proposta de transformação dessa suposta realidade. Ambos optaram por falar dos professores e para os professores, falando menos da escola, do ensino e dos alunos.

O primeiro, num registo a roçar a demagogia, fez o elogio do professor enquanto “peça” fundamental do ato educativo. Não se conseguindo afastar de um pensamento clássico da política, do sistema educativo e da escola reprodutora do status quo social, Marçal Grilo gastou mais de meia hora com lugares comuns e inevitabilidades, exortando os professores a salvarem as próximas gerações e o país da triste realidade em que estamos mergulhados, não falando nunca da necessária ação do professor enquanto cidadão e membro responsável da polis.

O segundo, utilizando o discurso populista em que se especializou e que lhe rende aplausos de mentes acríticas e consumidoras de “pensamento pronto-a-usar”, cavalgou o mesmo tipo de discurso conformista de Marçal Grilo, remetendo todas as culpas e responsabilidades pelo estado-da-educação que temos para uns facínoras que impedem os ministros de educação de colocarem em prática as suas ideias – Vitor Gaspar vs. Nuno Crato – e uns energúmenos que nas direções das escolas impedem que a autonomia profissional dos professores se exerça em toda a sua plenitude.

Tanto um como outro esqueceram que os professores, até porque alegadamente constituem uma classe profissional com as mais elevadas qualificações académicas, têm a responsabilidade de analisar, descodificar e traduzir a informação disponível, transformado-a em conhecimento útil para que os seus alunos se tornem cidadãos de pleno direito e não consumidores acríticos e manipuláveis por interesses menos claros, sejam eles políticos ou económicos.

A terminar apenas um lamento: nenhum dos oradores quis, ou teve o golpe de asa de, fazer o enquadramento da CRUZ que se abate sobre a Educação, à luz do que é hoje a vitória do pensamento dominante.

Apesar de alguns afloramentos às mudanças efetuadas na década de 80 do século passado a nível político-económico, nenhum dos oradores achou relevante explicar que a chamada “ Nova Economia” ou “Economia do Conhecimento” se vem traduzindo numa transformação do paradigma da gestão empresarial, que tem reflexos profundos na crise que atravessamos.

Se o capitalismo anterior à crise deste milénio se baseava num modelo de empresa assente na produção de bens e serviços, o capitalismo global, da desregulação total dos mercados e da livre circulação de capitais, assenta numa gestão apostada em criar “mais-valia para o acionista”. As “boas práticas” de gestão atuais não passam pela criação de produtos e pelo seu consumo, mas sim pela distribuição de dividendos aos acionistas. Para isso não são necessários operários nem técnicos especializados, mas apenas peritos na especulação bolsista e intermediação financeira.

Assim sendo restam dois caminhos aos cidadãos e à escola pública: i) combatem, sem tréguas, este modelo económico que apenas serve a acumulação de capital e destrói a vida das pessoas e a sociedade; ii) aceitam pacificamente o modelo e apenas se torna necessário formar peritos na bolsa, que nem precisam de ter uma formação académica muito elevada e apenas precisam de saber “ler, escrever e contar”.

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