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Vivemos “tempos extraordinários”.

Esta é uma frase que temos ouvido cada vez com maior frequência da boca de analistas encartados, que nos descrevem da sua cátedra os acontecimentos que nós vivenciamos no nosso dia-a-dia.

Não deixa de ser curioso que, assentando nesta premissa, a terapêutica aconselhada por tão doutos analistas seja a de executarmos as mesmas rotinas que nos conduziram ao estado de pobreza a que chegámos.

Estive nas manifestações de dia 15 e de dia 21, como tenho estado em muitas outras, organizadas por forças políticas, forças sindicais, ou através de convocatórias nas redes sociais.

Sei que entre os participantes nestas manifestações estiveram muitos cidadãos que têm opções políticas completamente divergentes das minhas, incluindo gente de extrema-direita. Muitos milhares de manifestantes estão extremamente desiludidos com os partidos que conhecem e, por isso, decididos a não votar em próximas eleições. A última sondagem conhecida, que volta a colocar o PS como partido mais votado, afunda o PSD e reconhece uma subida percentual do PCP e do BE, aponta para números assustadores da abstenção.

E no entanto os cidadãos saem à rua, protestam contra o roubo e as políticas desastrosas, cantam canções que fazem parte do imaginário da esquerda portuguesas e gritam palavras de ordem que se ouvem em comícios do PCP ou manifestações dos sindicatos filiados na CGTP.

O Povo É Quem Mais Ordena

Claro que também se ouvem vozes a considerar que todos os partidos são iguais, e todos os políticos têm igual culpa nas desgraças que se abatem sobre os portugueses. Mas são vozes claramente minoritárias, que apenas são amplificadas pela comunicação social porque isso faz parte da narrativa que justifica a impossibilidade de mudança.

(Catarina Martins – BE – interrompida por manifestante)

Há ano e meio atrás, quando PCP e BE se recusaram a conversar com a troika por considerarem que nada havia a negociar com o estrangeiro que não fosse a rendição do país, o coro do centrão mais a comunicação social alinhada, obediente e agradecida, convenceram os portugueses de que “pôr a cabeça no cepo” era uma inevitabilidade. Hoje, as análises feitas por esses dois partidos são reconhecidas como válidas e, sem surpresa, vemos alguns doutores troikistas a dar o braço a torcer:

Isto é uma transferência de dinheiro das famílias para as empresas (0:20)

Hoje é claro que o governo é um “morto-vivo”, a quem não se faz o funeral porque a troika exige a conclusão apressada do processo de privatização da TAP, da RTP, das Águas de Portugal e o que mais se verá, caso não se trave o passo a esta gente.

A alternativa a este governo e a estas políticas não é um governo de ToZé Seguro (que de resto até tem pânico da ideia) que continue a aplicar o memorando da troika.

Ao contrário do que comentador Russel afirma, quem substituiu Sócrates por Coelho & Portas não foi o PCP mas sim o voto popular. E por isso Coelho & Portas usufruiram de legitimidade para “ir além da troika”.

Face ao protesto popular que alastra, e que continuará a aumentar até que um outro governo corrija o rumo, os “senadores” da república, os líderes do centrão político e os fazedores de opinião querem evitar a todo o custo que o povo faça ouvir a sua opinião em eleições livres e justas.

Argumentam que saindo o PSD será inevitável levarmos de novo com o PS, fundamentando tal opinião numa suposta impossibilidade de os eleitores mudarem o sentido do seu voto e reforçarem o poder negocial da esquerda que sabe que o seu lugar não é de braço dado com o capital.

Trata-se do preconceito mais profundamente impregnado na sociedade portuguesa, de acordo com o qual o PCP, apesar de ter a capacidade de analisar e prever os desastres a que nos conduzem as políticas da direita, não é, não será, nem quererá ser “um partido de poder”.

O desafio está aí e estão criadas as condições para mudar a narrativa. A solução para esta crise social, económica e política passa por um novo governo, e aquilo que a rua está a dizer, de forma clara e veemente, é que a atual composição parlamentar não corresponde ao sentimento e aos desejos do povo. É preciso ir a votos e, nesse dia, cada eleitor decidirá o que quer fazer com o seu voto e de que modo quer contribuir para mudar de políticos e de políticas.

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