Etiquetas

,

Ao contrário do que muita gente pensa, e alguns dos comentadores repetem à exaustão, o problema que os portugueses têm com o governo não é de incompetência política do primeiro-ministro ou do seu ministro das finanças.

Pelo contrário, eles são extremamente competentes na aplicação do programa de empobrecimento, que definiram como a única salvação para o país. Do que se trata é que estes dois indivíduos, rodeados por um séquito de “viúvas do 24 de Abril”, acreditam, com toda a força dos seus seres, que “para o patrão comprar máquinas, carros, senhoras; para ele prosperar, ter barriga grande, ter dinheiro”, é forçoso que o salário dos trabalhadores sirva apenas para que estes sobrevivam e continuem a produzir.

Ainda ontem Passos Coelho reafirmou que, na sua perspetiva, Portugal continua a ter falta de competitividade devido ao facto de não ter diminuído o suficiente os custos salariais. O homem acredita profundamente neste princípio e está determinado, como reafirmou na entrevista, em conseguir atingir o seu desígnio – custe o que custar. E está hoje claro que, relativamente a este objetivo, é de uma eficácia e de uma competência extremas.

Monangambé

Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
“porrada se refilares”?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
– Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
– ter dinheiro?
– Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

– “Monangambééé…”

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras

– “Monangambéé…'”

António Jacinto(Poemas, 1961)