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João César da Neves, um dos mais proeminentes comentadores da direita que nos explora, assina hoje mais uma crónica abjeta e falaciosa no DN.

A “coisa” é sobre uma alegada ignorância e falta de justiça do TC, a propósito da decisão que este tomou de impedir que o roubo de 14% do rendimento anual dos funcionários públicos e pensionistas se prolongue para lá de 2012.

Escreve JCN :

  • Os funcionários públicos e pensionistas não estão em situação de igualdade com os outros trabalhadores;
  • A crise foi causada por erros públicos e privados, mas as empresas há muito pagaram os seus, enquanto a administração assistia impávida e até complicava. Entre os 820 mil desempregados não existe um único funcionário público ou pensionista;
  • A única cura, sempre anunciada e nunca realizada, viria de uma verdadeira reforma do Estado, com extinção de múltiplos serviços inúteis ou ociosos, redução drástica de outros e adopção de uma atitude geral de parcimónia e respeito pelo dinheiro dos contribuintes. Como as empresas fizeram já, a nossa máquina pública tem de aprender a viver com o que temos, curando a sua toxicodependência do crédito externo.

Sobre a 1ª afirmação de JCN ( e de todos quantos usam exatamente o mesmo argumento) convém dizer que equidade e igualdade não são sinónimos. Convém também lembrar que nem os funcionários públicos são todos iguais entre si, nem os assalariados do setor privado gozam todos do mesmo tipo de privilégios.

No setor privado, que esta gente tanto diz defender, há quem receba um salário inferior ao salário mínimo nacional e há quem aufira rendimentos de muitos milhões de euros; há quem tenha que pagar o passe social com enorme sacrifício e quem circule em automóveis topo de gama, com combustível e portagens pagas pela empresa, porque isso está incluído no seu pacote salarial; há quem  não tenha dinheiro para pagar as taxas moderadoras no hospital ou centro de saúde e há quem tenha seguro de saúde incluído na sua folha salarial.

Sobre este tipo de desigualdades não fala este especialista da economia, como não fala nenhum dos seus companheiros de pensamento neoliberal.

Mas como bem diz o povo, a mentira tem perna curta. Para o demonstrar basta passar à 2ª afirmação selecionada, na qual JCN diz que não há um único funcionário público entre os seus 820.000 desempregados. Por certo não lê notícias, nem vê telejornais, caso contrário saberia que só entre professores, que trabalharam nas escolas públicas na última década, estão já largos milhares. E aos que este ano já esgotaram o seu subsídio de desemprego juntar-se-ão, nos próximos meses, mais 10.000 a 15.000 que viram os seus contratos terminados sem que o ministério lhes pague a indemnização prevista na lei e em setembro não terão lugar nas escolas, embora o sistema precise deles.

O que nos leva à última das afirmações que selecionei, que fala da redução drástica de serviços públicos que JCN considera inúteis ou ociosos, sem elencar quais os que lhe vão na cabeça. Mas sabemos bem do que fala – saúde, educação, assistência social e transportes. São estas as jóias da coroa em que o capital quer ficar sozinho a reinar.

São estes os alvos da ambição e da ganância dos detentores do capital e dos seus testas-de-ferro, porque se trata de setores e serviços imprescindíveis na nossa sociedade. No dia em que o estado abandonar o seu papel de prestador destes serviços, e em que o seu papel regulador for controlado por homens de mão do capital, os trabalhadores ficarão definitivamente mais pobres e os amorins, os soares dos santos, os belmiros, os balsemões e tutti quanti ficarão uns milhões mais ricos. Atente-se na entrada da Jerónimo Martins em mais uma área de negócio

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