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Se Nuno Crato não prevê nenhuma acção extraordinária para o caso da Lusófona, já o presidente da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, entidade que faz a acreditação dos cursos superiores, defende que o Ministério da Educação já deveria ter solicitado à Inspecção-Geral de Educação e Ciência que instaurasse um inquérito não só ao processo de licenciatura de Miguel Relvas, como aos restantes 88 casos em que a universidade terá dado equivalências com base no currículo profissional.

A forma expedita como um político carreirista consegue obter os graus académicos, com que acha que precisa de se apresentar aos seus pares, apenas revela o caráter desse tipo de personagem que medra entre as juventudes partidárias do “arco do poder”, e que explica porque é que o “videirismo” tem precedência sobre a honestidade, neste país em que basta ter um olho para ser rei entre cegos.

O que me incomoda no caso de Relvas, tal como me incomodava no caso de Sócrates, é que por pertencerem à elite política que acede a cargos governamentais já não se achem escrutináveis e pensem que os restantes portugueses são uns parolos que têm que ouvir (explicações risíveis e absurdas) e calar.

Mas também me incomoda que os seus correlegionários branqueiem atos vergonhosos, que condenariam se fossem cometidos por qualquer outro português.

Nuno Crato, o comentador político que há muitos anos deu aulas numa escola secundária e, depois disso, também leu uns quantos artigos sobre economia da educação, chegou a MEC com um discurso construído (e amplamente difundido nos media) de rigor e combate ao facilitismo.

Chegado ao governo atirou-se, que nem gato a bofe, ao programa de certificação e validação de competências dos CNO, exatamente em nome do combate ao facilitismo. Com isso conseguiu duas coisas:

  • paralisar um programa que certificava as competências adquiridas pelos portugueses que tinham abandonado a escola precocemente, mas que através do trabalho e do esforço de aprendizagem profissional demonstravam merecer a equivalência ao diploma do ensino básico e/ou secundário;
  • eliminar alguns milhares de horários de professores que, nas escolas públicas, lecionavam as componentes académicas que complementavam as experiências profissionais dos formandos, validando e valorizando assim as respetivas competências.

Mas que faz agora Nuno Crato, o ministro, face à comprovada (embora pouco clara) forma como uma universidade privada validou e certificou a experiência adquirida ao longo da vida pelo seu companheiro de governo Miguel Relvas?

Não só não se atreve a emitir a mais rasteirinha opinião, como vai colocando os grãos de areia suficientes na engrenagem para que as conclusões e consequências de qualquer investigação não atinjam o correlegionário político.

No início da semana, à pergunta directa se a tutela ponderava desenvolver uma acção inspectiva aos processos de licenciaturas que se apoiaram na creditação da experiência profissional, o gabinete de imprensa respondeu: “A Inspecção-Geral da Educação e Ciência não está a investigar nenhum estabelecimento de ensino superior no que respeita à atribuição de diplomas com recurso à creditação da experiência profissional”.

Depois de o PÚBLICO fazer notar, através de resposta por correio electrónico, que a declaração não correspondia à pergunta feita, o gabinete de imprensa respondeu, só esta sexta-feira, que se inciou em 2012 “um novo ciclo de auditorias sistemáticas”. “É natural que a Universidade Lusófona seja em breve novamente auditada”, acrescentou. 

Admitindo que depois de 2009 não houve mais favores da Lusófona a nenhum estudante com amigos bem colocados, em eventuais processos de creditação bolonhesa, isso não valida os que se realizaram antes e, não sendo legalmente incorretos, são ética e moralmente condenáveis. Mas isso pouco interessa ao rigor crático, que apenas impõe a ética do estudo e do trabalho aos outros e a acha dispensável no caso dos que o rodeiam.