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… para além de terem mudado os ministros, secretários de Estado e mais algum pessoal político?

Basicamente, a grande mudança verifica-se na tolerância à mentira e aos embuste que se apossou, de repente, de uma enorme massa de portugueses.

Nesse particular a última semana é um excelente exemplo. Começando no “lapso” da data para o fim da suspensão dos subsídios de natal e férias e terminando no anúncio da suspensão das reformas antecipadas, conseguimos ouvir algumas vozes a denunciar a “trapalhada”, mas não se vislumbra quem tenha coragem de chamar aldrabões aos pantomineiros que dizem e desdizem as suas palavras, escondendo sempre os respetivos objetivos.

Sobre o lapso gaspariano, descontando a fala de um compére europeu que parece dar pelo nome de Peter Weiss, não há dúvida de que se pretende eternizar uma medida que foi anunciada como provisória e transitória, conseguindo assim a bênção dos juízes do TC. E o sujeito ainda tem o topete de gozar com os deputados da nação, e através deles com todos os portugueses que não o aplaudem, ao explicar-se como se estivesse a falar com atrasados mentais.

Quanto ao tema da suspensão das reformas antecipadas, a explicação sustentada na sustentabilidade da SS só colhe junto de gente destituída de um mínimo de capacidade crítica. Sendo uma medida que se aplica a um universo reduzido de portugueses, entre os 55 e os 65 e assalariados do setor privado (pois os funcionários públicos só serão  abrangidos caso tenham ingressado depois de 2005), terá como maior consequência a pressão sobre os salários, no sentido da sua baixa.

É que não sendo possível recorrer ao mecanismo da reforma antecipada, restará aos trabalhadores atingidos pelo desemprego a aceitação de salários mais baixos, sob pena de ficarem sem qualquer sustento logo que termine o subsídio de desemprego. Além disso, ao não saírem do mercado de trabalho para a reforma, estes assalariados garantirão uma maior oferta de mão-de-obra, pressionando ainda mais em baixa o salário que as empresas irão propor.

Estes dois exemplos são mais uma pequena peça no mosaico complexo que explica a dificuldade de reação dos trabalhadores a estas políticas de roubo e exploração sistemática. No entanto, tudo se encaixa no modelo desenhado pela escola de Chicago e desenvolvido por sucessivos executivos do FMI, tal como há mais de um ano (ainda antes do triunfo de PPC) escrevi:

Sobre o conceito de “Doutrina do Choque“, aos 67′ do filme,  Naomi Klein explica-nos que se trata do saque (roubo) sistemático dos bens públicos na sequência de um desastre (guerra ou catástrofe natural), quando a população está demasiado focada na emergência e nas suas preocupações diárias, para conseguir proteger os seus interesses.

A coincidência desta definição com o estado de torpor e anomia a que nos conduzem doses maciças de desinformação, sobre a crise da dívida portuguesa e a falta de dinheiro nos cofres do Estado, esclarece a dificuldade que os portugueses têm de se opor ao esbulho dos seus salários e do que ainda resta de propriedade pública. É esta terapia de choque que nos impõem, para que melhor aceitemos a privatização da escola pública, dos sistema nacional de saúde, da distribuição de bens essenciais como a água e o que mais se verá.

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