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Ouvir e ler hoje o discurso dominante, em que “peritos” medíocres fabricados pela comunicação social reproduzem e acentuam o cânone neoliberal, leva-nos de regresso a um passado com 40/50 anos, em que os portugueses fugiam à má-fortuna da guerra colonial, da pobreza imposta “a bem da nação” e da salvação das almas e da repressão policial com que o estado-novo (velho de meio século) calava a dissidência e a oposição.

A recente proposta do presidente do ISEG, de um serviço público de televisão orientado e manipulado pelo governo, revela bem o apego à democracia deste tipo de criatura. Este ex-comentadeiro do Pano Inclinado, com que Mário Crespo foi vendendo uma panóplia de “sábios” que defendem o empobrecimento generalizado dos trabalhadores, faz parte da corte de peritos a que aludi no parágrafo anterior.

Juntando-lhe o sábio matemático Nuno Crato, que agora nos quer convencer que vai fazer melhor educação com menos 10% de verbas e despedindo 20 a 30% da força de trabalho, podemos olhar de uma outra forma para o modo como os patrões da comunicação social manipulam e controlam a chamada “opinião pública”.

Balsemão, Belmiro & comandita têm conseguido, ao longo dos últimos 30 anos, conduzir a massa anónima e pseudo-letrada, que consome em primeira mão os respetivos produtos mediáticos, como bons pastores que são.

É assim que se compreende que tantos e tantos trabalhadores, que vêm os salários diminuídos e desvalorizados mês após mês, sejam capazes de dizer que não há alternativa e que o país precisa deste seu sacrifício.

É assim que percebemos como é que é possível que haja desempregados que se insurgem contra os vizinhos que têm trabalho, em vez de protestarem contra a política recessiva que obriga ao fechamento das empresas; que haja funcionários públicos se queixam da injustiça dos privados ainda terem subsídios de natal e férias, em vez de protestarem contra a empresarialização e a privatização dos serviços públicos; que haja empregados do setor privado que olham com inveja para a “segurança” de emprego dos funcionários públicos, em vez de protestarem contra a exploração de que são vítimas por parte dos patrões, com salários e horários de trabalho inadmissíveis numa sociedade que se pretende evoluída.

No dia 24 vai haver um Greve Geral. Todos sabemos que isso não é sinónimo de greve total e haverá muita gente que vai trabalhar. Uns porque as tarefas que desempenham são imprescindíveis ao bem estar das populações e às suas necessidades vitais, outros porque não querem fazer greve.

Entre estes últimos, uma parte importante é a dos que convictamente defendem a política de exploração que o governo está a levar a cabo. São portugueses que acham, genuinamente, que a evolução da sociedade é determinada por uma espécie de darwinismo social em que os mais espertos, mais fortes, mais ricos e/ou mais bem relacionados são os eternos vencedores e aos restantes, uma vez perdedores, resta o papel de servir os “senhores”.

São, sem margem para dúvida, pessoas que abominam o esforço coletivo e defendem ao limite o individualismo como forma de vida; são defensores indefetíveis da meritocracia e desconfiam sistematicamente das iniciativas grupais, por não permitirem evidenciar as qualidades individuais de que se acham portadores. Nada a objetar contra tal posição, com a condição de que estes indivíduos sejam coerentes e abdiquem de todos as vantagens que a humanidade alcança pela mais valia do trabalho em comunidade.

Mas há também um grupo enorme que acha fundamental protestar contra esta política e que haja imprescindível fazer uma grande greve (quiçá uma greve prolongada, de modo a ser ainda maior). Só que não vai participar nesse esforço coletivo porque: i) precisa desesperadamente do salário desse dia para viver; ii) um dia de greve não muda nada e as medidas estão decididas; iii) a greve é política e a sua política é o trabalho; iv) as greves são marcadas em  obediência a “agendas partidárias”.

Pois em relação a tudo isto o que se pode dizer é que as mudanças sociais são muito lentas e dolorosas. Esperar que uma greve, seja de um dia, seja de um mês, transforme totalmente a relação de forças entre o trabalho e o capital revela otimismo irrealista e inconsequente, ou ignorância política e ideológica total.

A luta social é um processo continuado, com avanços e recuos, mas que ao longo de décadas se tem traduzido em grandes ganhos para milhões de trabalhadores.

Em Portugal e, de uma forma geral, nos países do sul da zona euro estamos hoje num tempo de recuo e resistência. Nessas circunstâncias impedir o regresso a um passado não muito longínquo é já uma vitória. No caso dos professores, impedir que se volte ao tempo em que as férias não eram pagas, e em que ter trabalho em Setembro dependia da boa-vontade do senhor reitor, é uma vitória importante e que está ao nosso alcance. Mesmo quando parece ser inevitável a perda para sempre dos 13º e 14º meses.

Lutar é preciso e

A LUTA CONTINUA NA GREVE GERAL

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