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Os fóruns em directo são um must em que os OCS apostam há bastante tempo, criando a ilusão de “dar voz ao povo”.

Tendo uma história longa, desde os “Fórum TSF”, a coisa foi-se estendendo às televisões por cabo onde também serve para encher a grelha de programação a baixo custo.

Se a coisa se ficasse pela ilusão da populaça quanto à eficácia da sua participação, não viria demasiado mal ao mundo. E até poderia servir para que os convidados pudessem introduzir uma dimensão de análise que fosse para além do discurso mainstream. Infelizmente, quer pela orientação e pelas perguntas do(s) jornalista(s) moderador(es), quer pela pressão do tempo em directo, é frequente que quem está em estúdio para comentar não consiga dizer o que podia fazer a diferença.

Mas o pior da “coisa” é a profunda incompetência dos jornalista(s)? que ouvindo ataques bárbaros a pessoas e instituições ausentes (e sem possibilidade de exercerem de imediato o contraditório) não são capazes de exigir fundamentação para esses ataques ou, de forma expedita, impedir que a acusação torpe tenha divulgação.

Foi uma situação desse teor que aconteceu no “Opinião Pública” transmitido ontem à tarde na SICN.

Logo no início do vídeo que se segue (a intervenção teve início um pouco antes, mas pertence a um outro excerto do programa) um encarregado de educação faz acusações de enorme gravidade a uma professora, nomeando-a e identificando a escola em que alegadamente terão ocorrido os factos que relata. A intervenção total ultrapassou os dois minutos de tempo de antena e o senhor acusou a professora de, além de ser incompetente, tratar os alunos de forma inaceitável, dizendo que cheiravam mal e eram uns porcos a ponto de, alegadamente, alguns terem medo de ir às aulas.

Perante este relato, que foi ouvido sem pestanejar pelo jornalista Pedro Cruz, nem uma questão foi colocada ao acusador. Pior ainda, no final o jornalista pediu desculpa por interromper e agradeceu a intervenção dizendo: «agradeço as dúvidas que aqui deixou e os casos concretos».

A dinâmica do programa, não permitindo um contraditório imediato, deixou que a ideia de que há professores que tratam mal os alunos, não lhes ensinam o que devem e, ainda por cima, os insultam. De facto, entre o minuto 02:00 e o minuto 13:25 foram ditas inúmeras coisas, mas nenhuma voltou a por em causa as acusações feitas. E apenas nesse momento, ao minuto 13:25, o convidado fez uma pequeníssima alusão ao ataque do encarregado de educação. Infelizmente fê-lo de forma muito superficial e que terá ficado pouco clara para a generalidade da audiência, o que é explicável pela pressão do tempo disponível para abordar e sintetizar as opiniões e críticas feitas pelos espectadores.

No fundo, nada que não corresponda ao objectivo populista e irresponsável deste tipo de fóruns – dar a ideia à populaça de que a sua voz é ouvida e que podem denunciar os “pequenos poderes” que a oprimem.

Declaração de interesses:

Conheço todos os protagonistas deste episódio lamentável. Conheço o senhor que falou, fui professor e director de turma do seu educando há alguns anos e sou colega da professora nomeada;

Não pretendo fazer qualquer juízo de valor sobre o conteúdo das alegações do senhor José Loureiro, e muito menos os faria em público e neste blogue;

Nem professora nomeada no programa de ontem nem a direcção da escola que também foi identificada tinham conhecimento das acusações até que eu próprio apresentei o caso hoje de manhã;

A professora em causa não é sindicalizada e, como tal, o sindicato de que sou delegado nesta escola não está em condições de a representar, caso ela pretenda agir contra o senhor que a acusou publicamente;

Da conversa que tive com a direcção da escola retirei a conclusão de que iniciará de imediato diligências para averiguar o sucedido, quer ontem durante a transmissão do programa, quer as alegações do encarregado de educação;

Posso também acrescentar que, de acordo com a informação que me foi dada hoje de manhã, nunca a direcção do Agrupamento José Cardoso Pires teve conhecimento de qualquer das situações que ontem foram relatadas pelo senhor José Loureiro no programa da SICN – Opinião Pública.

Por tudo isto ter que ler comentários, que se pretendem jocososos, como o de uma senhora que é professora e até já teve (não sei se ainda tem) responsabilidades de direcção escolar é simplesmente lamentável.

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