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A chegada de Nuno Crato ao ministério da educação tem sido saudada por muitos professores com base na interpretação benigna, baseada numa espécie de wishfull thinking, que fazem do seu discuro: anti-eduquês, de reposição da autoridade e da generalização dos exames como garante da qualidade.

Quando, no recente debate do programa do governo, o ministro afirmou que «se não houver exigência nas escolas, serão os filhos dos mais ricos, que têm hipóteses alternativas, que acabam por progredir, em detrimento dos mais pobres», as bancadas do PSD e do CDS entraram em delírio e os seguidores de Nuno Crato que sonham com o “desmantelamento do poder da esquerda no ME” atingiram o êxtase .

É mesmo verdade. Há professores, e outros portugueses, que acreditam que é uma escola selectiva que garante o acesso de todos  ao pleno usufruto do conhecimento libertador e promotor da igualdade entre os cidadãos.

A tirada de Nuno Crato, lida fora do contexto do seu discurso global sobre a escola e o ensino, é sem dúvida apelativa e merece o apoio de qualquer pessoa preocupada com o futuro dos portugueses e que tenha um mínimo de consciência social.

Só que isto é dito por uma pessoa que insiste na uniformização do controlo selectivo dos exames e sem explicar como se tratarão os casos de todos quantos não conseguirão ultrapassar o limiar da excelência preconizada. Será através da repetição sistemática dos programas em que falharam, num ciclo mais ou menos prolongado de chumbos e reforço do fracasso? Ou será desconstruindo o paradigma da escola napoleónica e aos quadradinhos, para a qual nos remete o discurso de Crato sobre o liceu dos seus tempos de estudante? Tanto uma solução como outra têm, nos tempos actuais, um problema de monta: aumentam substancialmente os custos com o sistema. A menos que se espere que a repetição do fracasso afaste muitos da frequência escolar, como nos tempos em que os pais tiravam os filhos da escola porque «o meu rapaz não tem cabeça pr’ós estudos». O que, por sua vez, contraria a intenção de combate ao abandono escolar.

Curiosamente, esta ideia do exame controlador das aprendizagens, e mecanismo de punição dos relapsos que não estudam, casa muito bem com uma ideia de reforço da autoridade do professor. É certo que se trata de um entendimento de autoridade baseado num modelo hierárquico e burocrático da escola, em que a autoridade reflecte um poder que advém da posição que professor e aluno ocupam na escala social. Evidentemente que esta concepção de escola, reprodutora de um modelo social classista, assenta que nem uma luva a quem acha que uma sociedade pacífica e pacificada é uma sociedade em que não se deve questionar a autoridade divina ou hierárquica, sob pena de se cair no caos e na desordem.

No entanto este é um modelo que, a menos que seja imposto pela força, já não é aplicável na sociedade do séc. XXI. Uma escola com professores cuja autoridade seja imposta por um poder hierárquico, outorgado por um sistema centralizado (que tanto se diz querer combater), não tem futuro como escola para todos. É que quando os alunos não reconhecem a autoridade do professor bem pode este estar investido de imenso poder pelo director, pelos secretários de estado, pelo ministro, ou até pelo presidente da república. Nada disso interessará para que o aluno aprenda o que o professor pretenda ensinar-lhe. E o insucesso e o absentismo continuarão a fazer o seu caminho, vindo a desaguar muitas vezes na marginalidade e na prisão.

Uma escola que não tenha o suporte das outras instituições, e que pretenda sozinha educar e instruir, pode até produzir autómatos; nunca formará cidadãos.

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