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Uma primeira advertência para dizer que este não é um post sobre o programa do XIX Governo, nem em termos globais, nem no que diz respeito ao sector da Educação, Ensino Superior e Ciência. Na verdade ainda não li o texto original, tendo apenas a informação que releva da interpretação de comentadores mais ou menos encartados, mais ou menos amadores, mais ou menos profissionais. Quando me decidir lê-lo terei que acompanhar esse exercício com a leitura complementar do programa da Troika e do programa do PSD, já que só essa visão de conjunto, acrescida da leitura do OGE que será apresentado em Outubro, dará a verdadeira dimensão do aperto em que os portugueses se encontram como antecipei aqui.

Uma segunda advertência para acrescentar que este não é um post sobre Nuno Crato. O que já pensava e continuo a pensar sobre o novo ministro está expresso em alguns posts escritos aqui no blogue – 1, 2, 3, 4.

Este post destina-se a tentar perceber porque é que um conjunto de ilustres colegas que leccionam em escolas públicas do ensino básico e secundário, gente com formação de nível superior e em alguns casos com pós-graduações, mestrados e doutoramentos, limitam a sua análise e alteram o seu humor relativamente às qualidades do ministro Crato e do programa para a educação que ele deverá aplicar a uma única dimensão – a suspensão da ADD.

De facto, navegando pelos blogues de professores mais lidos e que se auto-referenciam, constata-se que entre a nomeação do ministro e a publicitação do programa do governo o clima geral era de alegria e expectativa, assente num discurso vago de combate ao facilitismo e de recuperação da autoridade dos professores. Em fundo sonhava-se com a suspensão imediata do modelo de ADD e sua substituição por um modelo não kafkiano. E ai de quem nesses blogues se atrevesse a criticar as intenções atribuídas a Crato: não se diria dele menos do que Mafoma disse do toucinho.

Depois de conhecido o programa governamental para a Educação, para quem como eu não o leu ainda, fica-se com a estranha sensação que se resume a uma medida que será uma não medida: não suspensão do modelo de ADD e sua posterior reforma. Então e o resto? o fim do facilitismo? a retoma da autoridade dos professores? os exames? o fim do “eduquês”? será que sobre esses assuntos já não é importante discutir? Os títulos dos posts publicados levam a crer que só uma coisa interessa, de facto, os professores que escrevem e comentam em blogues sobre educação – Lamentável; Coerência, precisa-se!; Ridículo; A Avaliação de Desempenho; O Modelo de Avaliação no Programa de Governo; Da (outrora) urgentíssima revogação à intemporal reformulação; Dois pontos de vista sobre a não revogação; Ainda não aqueceu o lugar e já está em “estado de desgraça” (por mérito próprio, claro); Como Desbaratar Um Quase Estado De Graça Em Apenas Uma Semana; Estão Dispostos A Colocar A Assinatura Nesta Manta De Retalhos Sem Nexo?

Da minha parte parece-me lamentável este afunilamento do pensamento de uma parte dos professores. Até por se tratar de pessoas com alguma responsabilidade, que lhes advém da cobertura mediática que por vezes lhes é dada e pelo facto, não menos importante, de terem muitos leitores no seio da classe.

Num comentário que fiz há dias no blogue da Apede, referindo-me às expectativas sobre o desempenho de Nuno Crato à frente do ME, escrevi o seguinte:

Cada vez mais longe fica o “unanimismo” do 8 de Março.
Porque, efectivamente, naquele imenso caudal havia águas de muitos rios e ribeiras, cada qual arrastando no seu seio muita espécie diferente de detritos, nem todos misturáveis.
Nuno Crato será mais um dique que reencaminhará algumas dessas águas em sentido diverso daquele que têm vindo a seguir.

Hoje já não tenho tanta certeza sobre a separação das águas, se o “motor” de novas mobilizações der suficiente destaque à ADD. Pelo tom do que se vai lendo nas caixas de comentários de alguns dos blogues que citei muitos dos que na semana passada estavam incondicionalmente ao lado de Crato parecem dispostos a descer novas avenidas (da Liberdade, ou não) já no próximo fim-de-semana.

Infelizmente, esses são os mesmos que não se sentem mobilizados para denunciar e combater o aprofundamento da política dos mega-agrupamentos, da municipalização/privatização da escola pública, do aumento dos poderes dos directores e sua profissionalização, da simplificação do ECD no sentido de deixar nas mãos dos directores a decisão de progressão de cada professor, a exemplo do que sucede já com as restantes chefias da função pública.

Infelizmente também não se sentem mobilizados para a luta muitos dos colegas contratados, que em Setembro não terão horário, não terão direito à compensação por caducidade do contrato e só terão direito (se o tiverem) a um subsídio de desemprego reduzido no seu montante e duração.

Infelizmente, tanto uns como outros continuam a ter muita dificuldade em perceber e aceitar que estes problemas dos professores não existem num mundo distante e à parte dos problemas dos restantes portugueses que todos os dias se levantam para ir trabalhar, muitas vezes sem saber se na próxima semana ou no próximo mês ainda têm trabalho e direito a um salário digno.

O secretário-geral da UGT dizia há dias, num programa de televisão, que houve um tempo em que o salário não era mais do que um subsídio de sobrevivência. Os professores que se interessem um pouco pela história da profissão saberão que esse tempo também existiu na escola pública. Felizmente há bastante tempo que os professores conseguiram alcançar um mínimo de dignidade salarial, ao ponto de já quase não haver conhecimento (memória) desses tempos. Convém, no entanto, não imaginar que esse ganho é irreversível e que os professores, só porque o são, estão a salvo de qualquer retrocesso.

Ao contrário do que diversos analistas de meia-tigela insinuam, a firmeza com que devemos combater as políticas do XIX Governo – na Educação e nos restantes sectores – não se deve ao facto de este governo não ser do PS. O combate que temos pela frente tem que ser determinado e firme porque o ataque da direita é agora ainda mais violento do que há um ano ou há seis meses e tenderá a agravar-se na razão directa da passividade ou moleza com que for combatido.

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