Fosse eu um indefectível do novo m(s)inistro da educação e saberia, de ciência certa, o que é o “eduquês”.

Como sou um simples professor, que acredita na escola pública como uma instituição destinada a promover o acesso de todos ao conhecimento, e não como um lugar de selecção dos mais aptos, na leitura darwiniana de Adam Smith, retomada pelo neoliberalismo friedmanita da escola de Chicago, resolvi procurar para me “instruir”.

Vai daí pus-me a ler umas coisas que alguns vultos republicanos, nados e criados no século XIX, e como tal não contaminados pela “ideologia dominante do ministério depois do 25A”, pensaram sobre a educação dos portugueses

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Há infelizmente mestres cujo ideal é ter os discípulos submissos, quietinhos, calados, sem nunca se rirem (Bernardino Machado, Introdução à Pedagogia, 1892, p.20)

Deve o professor acompanhar pelo ensinamento a prática social dos seus alunos. Eis aqui alguns assuntos para lições, composições e discussões, que se poderão propor quando os acontecimentos da vida escolar sob o self-government tenham feito sentir o seu interesse: a liberdade em oposição à licença; a necessidade do governo municipal; as limitações de todo o governo; a importância do indivíduo na democracia (António Sérgio, Educação Cívica, 1984 [1915 a 1ª ed.] p.62)

Levem as crianças ao campo, deixem-nas correr, saltar, trepar às árvores, deixem-nas encher-se de ar puro e de impressões novas, deixem-nas ver e falar, pensar; e elas mesmas virão com igual animação procurar o professor para que lhes explique o que viram e lhes resolva as suas questões (Bernardino Machado, Introdução à Pedagogia, 1892, p.20)

Confesso que fiquei confuso. Será destes apelos à criatividade dos alunos, à sua apetência pela descoberta e à necessidade de o mestre estar atento aos seus desejos e aspirações que falam os críticos do “eduquês”? Afinal esta “ideologia perniciosa” não foi inventada por uns esquerdistas façanhudos e inimigos do esforço e do trabalho, numa madrugada de Abril?

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