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Hoje, em conversa com um amigo, debatíamos as eleições de dia 5 e fazíamos projecções sobre os cenários que se colocam. A certa altura, porque eu me mostrava muito céptico em relação à possibilidade de os portugueses voltarem a colocar José Sócrates à frente dos seus adversários, o meu amigo declarou peremptoriamente «No CDS e no PSD não voto de certeza… e nos comunas também não, que quando visitei a Checoslováquia bem vi os arames farpados e a ditadura em que eles viviam. Quanto aos outros, logo se vê»

O meu amigo é um típico eleitor da “esquerda democrática”, homem medianamente informado, professor culto e educado. Mas é também um homem que desde novo foi habituado a olhar para a luta política como um combate entre a liberdade do indivíduo e o constrangimento do colectivo, sendo que a liberdade individual constitui o bem supremo e o colectivismo supõe necessariamente a restrição do uso desse bem.

É assim que, sempre que a conversa flui no sentido da discussão de propostas do PCP, na altura em que a razão devia levar à aceitação da bondade dessas propostas, este(s) amigo(s) recorre(m) ao argumento definitivo: os comunistas são perigosos por causa dos gulags, dos tanques em Praga e em Varsóvia e, claro, dos mísseis em Cuba.

Sobre esses “convenientes” factos históricos, sempre à mão, já pouco mais haverá a dizer ou escrever. As posições são conhecidas e os argumentos nunca conseguem convencer a parte contrária.

No entanto, ao longo do último meio século, temos vindo a assistir a uma forma de actuação terrorista dos “cavaleiros da liberdade” chefiados pelos “Chicago boys”, que assenta no pensamento de dois ícones do pensamento liberal – Hayek e Freedman.

No livro de Naomi Klein, a que me referi em post anterior, é possível encontrar uma outra visão menos romântica e encantadora do papel de Milton Freedman no desenvolvimento da estratégia desumana e predadora que o capitalismo tem usado para se apropriar, não só de alguns sectores económicos, mas dos próprios estados a um nível global.

Trata-se de um olhar que permite perceber a forma como as grandes corporações se têm vindo a apropriar das riquezas produzidas em todo o mundo e como, finalmente, se preparam para conquistar as suas últimas fronteiras: as economias fechadas do petróleo do mundo árabe e sectores das economias ocidentais que desde há muito têm sido protegidas da pretensão de lucros – sectores que incluem a resposta a desastres e a constituição de exércitos – KLEIN N. (2009), A Doutrina do Choque, Smartbook.

Para privatizarem esses sectores, uma vez que não prevêem solicitar o consentimento público, essas grandes corporações (multinacionais americanas, mas também inglesas, francesas, alemãs, etc) precisam de recorrer cada vez mais à violência da guerra, ou então aproveitar os cataclismos naturais que provoquem o pânico, o terror e o choque propício à paralisação da vontade dos povos.

Sobre o terror e a tirania impostos pelo capital, neste seu ataque predador de todo o globo, que começou com o golpe de estado de Pinochet e se prolongou pela ditadura argentina, a guerra das Malvinas/Falkland, a praça de Tienamen em Pequim, os tanques de Ieltsin no cerco à Duma, os bombardeamentos da Nato em Belgrado e das forças aliadas dos americanos em Bagdad, ou as prisões ilegais e a tortura a que os agentes das forças secretas ocidentais sujeitam os seus prisioneiros, nem uma palavra de condenação se ouve. E se algum “democrata” mais militante se permite pensar que aqui e ali existe algum excesso, por parte dos novos “vigilantes da liberdade”, isso é rapidamente explicado com a necessidade de combater o perigo totalitário do comunismo.

E assim seguimos, “cantando e rindo” rumo à consagração de mais uma inevitabilidade: a de que o capital tem todos os direitos e o trabalho todos os deveres.

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