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O clima que se vive por estes dias, seja pelo que se ouve nas escolas, seja pelo que lê em alguns blogues editados por professores, parece ser o de uma aceitação passiva e pacífica da inevitabilidade e da benignidade da intervenção protagonizada pela troika – CE/BCE/FMI.

Chega-se ao ponto de ler que ganhará as eleições quem conseguir demonstrar a sensatez da troika (e não acreditar no que leio, porque se trata de uma pessoa esclarecida e que considero bastante sensata.)

É que, para quem ainda se lembra, durante os últimos tempos assistimos a inúmeros discursos dos gurus mediáticos, que não se coibiam de condenar o neoliberalismo, a desregulação dos mercados e das relações de trabalho e a ganância dos especuladores capitalistas, como a causa da crise que o país atravessava e ainda atravessa.

Numa breve retrospectiva não exaustiva poderemos afirmar que não houve gato-sapato na área do PS, desde o próprio 1º ministro até ao padrinho Soares, passando por inúmeros comentadores que iam desfilando nas televisões e nos jornais, que não verberassem a cupidez das agências de rating e os banqueiros sem escrúpulos.

Pensava eu que tínhamos chegado a um certo “consenso”, pelo menos de gente que diz que tem preocupações de âmbito social, de que o programa neoliberal de globalização capitalista devia ser controlado e reprimido. Claro que se tratava do meu optimismo incorrigível, uma vez que agora o consenso parece ser o de que é necessário não diabolizar “este memorando” e aceitar como bom e sensato o programa que nos é receitado pela troika, mesmo se se trata de uma receita estafada e sucessivamente aplicada desde que os “chicago boys” tomaram conta do governo do Chile pela mão de Pinochet.

Receita que foi sendo sucessivamente aplicada e “aperfeiçoada” no Reino Unido a partir de Tatcher e Blair, nos Estados Unidos com Reagan e Bush e não interrompida por Clinton ou Obama. Receita aplicada de modo radical na Argentina que colapsou na viragem do milénio, mas também nos países de leste onde se substituiu a planificação centralizada pelo gangsterismo organizado das novas máfias.

Achar sensato um programa que agrava as condições de vida das pessoas mais vulneráveis, ao mesmo tempo que reserva fundos consideráveis para os bancos que foram considerados responsáveis pela crise devido às erradas políticas de concessão de crédito, é uma contradição insanável.

Achar sensato que se aceite diminuir o emprego, ao mesmo tempo que se diminui o apoio aos desempregados e se passa a taxar o subsídio de desemprego, é uma contradição insanável.

Achar sensato que se aumente o IVA, mesmo em produtos de primeira necessidade, numa altura em que as pensões são congeladas, os despedimentos facilitados e o abono de família passa a ser taxado, é uma contradição insanável.

Achar sensato que se proponha a flexibilização do despedimento, admitindo alterar as condições de rescisão individual dos contratos de trabalho, é uma contradição insanável.

Achar sensato que o Estado aliene as suas participações em empresas que são lucrativas e que proporcionam grandes receitas ao erário público, não só é uma contradição insanável, como é até criminoso.

Achar sensato que o Estado privatize empresas que detém o monopólio em sectores estratégicos é uma contradição insanável, porque isso vai agravar ainda mais as condições de vida dos trabalhadores e das empresas.

Achar sensato vender o BPN limpo de encargos, depois de o OE ter assumido os custos da sua gestão ruinosa e não impondo um valor mínimo para a sua aquisição, é pactuar com o roubo dos contribuintes e é uma contradição insanável.

Achar sensato que os contribuintes assumam a responsabilidade de pagar um empréstimo de 78 mil milhões de euros e canalizar 12 mil milhões limpinhos para financiar os causadores da crise é, definitivamente, uma contradição insanável.

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