Etiquetas

Este post não se destina a reflectir sobre vitórias e derrotas da noite de ontem. Também não pretendo discutir se a estratégia de cada um dos candidatos (e seus apoiantes), que se reclamaram representantes de um pensamento de esquerda, foi a melhor tendo em vista o objectivo de derrotar o candidato da “direita unida”.

Limitar-me-ei, por isso, a contar a experiência de um presidente de mesa de voto, num concelho onde Cavaco Silva não conseguiu atingir os 50% de votos, mas onde aumentou significativamente os resultados obtidos, em eleições anteriores, pelos partidos que o apoiaram.

Um primeiro ponto para referir o inacreditável da situação vivida por causa do “must” tecnológico, que é o cartão do cidadão.

O que aconteceu é o resultado de uma soma explosiva:

  1. voluntarismo tecnologicamente balofo dos governantes, que se deslumbram com os gadgets que os vendedores de modernidade lhes apresentam, sem cuidar de criar todas as condições logísticas para a sua utilização;
  2. crónica iliteracia e analfabetismo das populações que, habituadas à tutela dos homens providenciais (que tudo sabem e resolvem) acham que não é preciso informar-se sobre o que vai mudando no mundo.

Foi assim que umas quantas centenas de milhar de cidadãos se dirigiram ontem à sua mesa de voto habitual, não estando munidos dos instrumentos habituais para o exercício do direito de voto. Em larga medida por culpa da administração que não cuidou de lhes prestar a devida informação, em tempo útil. Mas também por culpa própria, por não procurarem informar-se nos locais apropriados, e em data anterior, se a sua secção de voto era ou não a habitual.

Foi assim que muitos cidadãos descobriram, na mesa em que votavam há muitos anos, que o cartão do cidadão os tinha mandado votar noutra assembleia de voto, ou mesmo noutra freguesia. Com a agravante de que lhes tinha sido dito, pelo funcionário que o atendeu nos serviços de identificação, que o número de eleitor estava lá no cartãozinho.

Não sei que influência este disparate teve nos números da abstenção. Não tenho dúvidas que contribuiu para o seu aumento, porque vi vários cidadãos a abandonar a assembleia de voto sem exercerem o seu direito e justamente indignados com o que lhes estava a suceder.

Quanto à mesa de voto a que presidi foi atípica, quanto aos números da abstenção, uma vez que votaram 63,53% dos eleitores inscritos. Esse acréscimo na votação, que se cifrou em mais 16% de votantes do que a média nacional, traduziu-se nos seguintes resultados por candidatura: Cavaco Silva 46,52%, Manuel Alegre 23,34%, Fernando Nobre 16,55%, Francisco Lopes 8, 27% José M. Coelho 3,47% e Defensor de Moura 1,82%.

Isto vale o que vale, mas num concelho em que nas últimas legislativas o PS, o BE e o MRPP somaram 51,3%, a soma dos três candidatos que colheram apoios nessas áreas políticas foi apenas de 41,47%. Já Cavaco atingiu na Amadora 45,04%, enquanto a soma de PSD e CDS/PP foi em 2009 de 31,14%.

Admitindo não ter havido transferências directas de voto, podemos imaginar a quem beneficiou e a quem prejudicou o aumento da abstenção.

Anúncios