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Depois de no post anterior ter sido visitado por alguns comentadores ligados ao “sindicalismo à PS” (Nando e Atento), hoje tive honras de resposta oficiosa desta tendência no site do SPGL, em forma de editorial, mas sem que a direcção como colectivo seja responsabilizável, na medida em que José António Faria Pinto faz questão de assumir exclusivamente a autoria da prosa e, embora tenha sido eleito dirigente sindical do Oeste pela lista da direcção, não é o seu presidente, nem sequer um dos vice-presidentes.

Com a celeridade habitual, o meu confrade blogosférico que não perde uma ocasião para mandar alguma(s) alfinetada(s) apressou-se a colocar o link para o texto de JAFP, fazendo questão de estabelecer uma relação com o meu blogue, mas sem dar indicação do texto que originou a resposta do “sindicalista do PS”.

De facto, como também é possível ler em alguns dos comentários que PG preferia não terem sido feitos ao seu post, o texto de Faria Pinto é esclarecedor da forma como os “sindicalistas do PS” minam por dentro a credibilidade de instituições que nasceram e existem para defender os direitos dos trabalhadores e não para os anestesiar e tornar mais manobráveis pelo capital.

Mas vejamos, ponto por ponto, o que existe de errado na postura de Faria Pinto, tal como na de João Paulo Videira e todos quantos acham “natural” a circulação entre o sindicalismo e o governo.

  • Em primeiro lugar, ao contrário da tradição nórdica e anglo-saxónica, em Portugal os partidos que se reclamam da social-democracia (PS e PSD) não tiveram a sua origem nos movimentos sociais ligados ao mundo do trabalho, mas foram fundados por grupos de amigos de origem burguesa, embora tenham lido alguns autores de referência à esquerda, na sua juventude. Mário Soares e Sá Carneiro nada têm a ver com o mundo operário, nem com o sindicalismo, que esteve na fundação do partido trabalhista britânico ou dos partidos social-democratas do norte da Europa;
  • Daí que  a primeira grande batalha destes (a)fundadores da democracia portuguesa tenha sido contra a unidade sindical, corporizando o patrocínio e a criação da UGT, central sindical reformista que viu a luz do dia para combater o sindicalismo de classe;
  • Esta postura de conciliação de interesses antagónicos está bem evidente na afirmação de JAFP faz, ao dizer que o ME não é uma Confederação Patronal, mas apenas um empregador que dá trabalho a milhares de trabalhadores e estes não querem saber da orientação política de quem dirige essa estrutura empregadora;
  • Antes de mais, JAFP dá a entender que o sindicalismo só deve lutar contra as “confederações patronais”. Parece, assim, querer deixar de fora cada uma das empresas consideradas individualmente como empregadoras;
  • Acrescenta que os trabalhadores e, consequentemente, os sindicatos não têm nada que se preocupar com as orientações políticas que são tomadas pelas “entidades empregadoras”
  • Conhecemos bem essa argumentação, especialidade dos novos modos de regulação das políticas públicas que pretendem, através de formas de governança soft, fazer-nos crer que tudo se reduz a uma dimensão técnica e apolítica;
  • Seria com base nessa tecnicidade e apolitismo que poderíamos aceitar como natural a mudança de um quadro sindical da direcção do sindicato para a “estrutura empregadora” que antes combatia. Tudo em nome de um “aperfeiçoamento” técnico das medidas que a direcção da “estrutura” precisaria de tomar;
  • Mas o coelho salta definitivamente da cartola com a afirmação de que os sindicatos foram «institucionalizados e protegidos pelas democracias capitalistas para  manterem os conflitos sociais dentro da legalidade, evitando as manifestações desordeiras, as greves selvagens e a luta armada». Isso é verdade em relação ao sindicalismo reformista, de que a UGT é o expoente máximo em Portugal, mas que tem acérrimos defensores em pessoas como JAFP e grande parte da corrente socialista nos sindicatos da CGTP;
  • É este tipo de sindicalismo que descredibiliza os dirigentes sindicais e é contra esta postura que muitos trabalhadores se manifestam quando se dizem desagradados com os sindicatos;
  • Infelizmente muitos trabalhadores afastam-se dos seus sindicatos por causa deste tipo de orientação política e sindical de alguns dirigentes;
  • No entanto este episódio pode servir para mudar algo. Em primeiro lugar pela revolta que estas situações criam entre os dirigentes que, de uma forma séria e empenhada, dedicam o melhor do seu esforço e trabalho à causa sindical e à defesa dos trabalhadores, que no caso vertente são os professores e a escola pública. Mas também pela clarificação que impõe no seio de um colectivo em que as contradições se aprofundam, face à evidência de que os interesses pessoais sobrepõem o colectivo e, mais grave, desrespeitam os mais básicos princípios éticos, muito embora não configurem nenhuma ilegalidade;
  • Uma última consideração sobre a “coabitação” de militantes e simpatizantes de partidos na direcção do SPGL. O conceito de coabitação, sendo chocante para quem lê, é o que melhor se adequa ao pensamento estratégico que determinou a constituição da lista da direcção. Por mim preferiria usar conceitos como colaboração, empenhamento num projecto comum ou partilha de um ideário;
  • É exactamente porque os conceitos que utilizamos são diversos da ideia de coabitação, que a direcção do SPGL, através do seu presidente, mas também de alguns dos seus vice-presidentes, sabe que a tendência que se aglutina em torno do lema Professores Unidos está sempre na linha da frente nas iniciativas do sindicato que sirvam a defesa da escola pública e dos interesses dos professores. Como também sabe que, apesar de não termos cargos dirigentes, os activistas e delegados sindicais dos Professores Unidos se preocupam quotidianamente com o reforço do SPGL, quer através da procura de novas sindicalizações, quer do recrutamento de mais delegados sindicais para uma maior ligação às escolas. Bom seria que todas as tendências que “coabitam” na direcção pudessem assumir a mesma postura.