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Por “dever de ofício” li dois capítulos do livro de Maria de Lurdes Rodrigues «A escola pública pode fazer a diferença». O 1º, que constitui a Introdução e tem por título «Políticas para fazer a diferença» e o 23º, incluído no tema da Eficiência, cujo título é «Carreira docente com avaliação».

Do ponto de vista académico tratou-se de uma leitura extremamente interessante. Sobretudo a do 1º capítulo em que, num registo justificativo mas também explicativo, a ex-ministra revela acreditar piamente que o papel do(s) partido(s) socialista(s) é gerir o capitalismo, de forma a dar-lhe uma face humanista e obrigá-lo a perseguir princípios de equidade e justiça social. Mesmo quando para o fazer tenha(m) que seguir a vulgata neoliberal e utilizar os instrumentos de gestão que constituem a bíblia do capitalismo mais selvagem, exclusivamente preocupado com a acumulação ilimitada do poder económico.

Convém não esquecer que as primeiras experimentações das teses neoliberais dos “Chicago boys” começaram por ser feitas com a supressão total dos direitos de cidadania dos povos a quem foi aplicada a receita: Chile, México e Argentina. A este propósito, num dos capítulos do livro de José Goulão, «Pagadores de Crises», o autor transcreve uma carta da sra. Thatcher a um seu mentor, lamentando-se de que no democrático Reino Unido não seria possível aplicar com a mesma rapidez os preceitos neoliberais, porque havia um obstáculo complicado a transpor – os ingleses prezavam muito o seu estado de direito e a sua constituição, mesmo que não escrita. Ainda assim, a «dama de ferro» terminava afirmando que seria apenas um pouco mais demorado, mas quando concluído o processo instalar-se-ia em definitivo.

Palavras sábias… veja-se o legado deixado pelos “trabalhistas” (da 3ª via) que se lhe seguiram.

Um dos primeiros desígnios da sra. Thatcher foi liquidar o poder dos sindicatos. E fê-lo com tanto sucesso que conseguiu atingir o núcleo central do pensamento trabalhista, a ponto de ainda hoje a ligação do sindicalismo ao partido trabalhista não ter conseguido recuperar o seu fulgor da segunda metade do século XX.

Também a “nossa dama de ferro”, a incontornável ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues, identificou o poder sindical como adversário principal do seu programa “reformista”.

Na pág. 43 do seu livro, MLR identifica o paradoxo existente entre a excessiva centralização do sistema, ao nível financeiro e de produção legislativa, e a pulverização do poder ao nível das escolas, onde a autonomia financeira e administrativa é extremamente reduzida. É nessa altura que explicita, com todo o fulgor, a sua crítica ao sindicalismo docente: «No espaço aberto por este paradoxo, que os sistemas centralizados potenciam, existe o movimento sindical, com fortes recursos organizacionais e institucionais, que alia a presença nas escolas com um lugar institucionalizado nas negociações com o poder executivo.[…] Entre o ponto mais central do sistema educativo e o ponto mais local da actividade quotidiana de ensino, existe um contínuo com inúmeros pontos de veto.»´

É a partir deste diagnóstico que MLR avança com uma ideia de solução para tal constrangimento: «Ao mesmo tempo, existe uma pluralidade de actores (professores, dirigentes das escolas, autarquias, instituições empregadoras e instituições da sociedade civil local) com interesses e expectativas legítimas [que] carecem de recursos organizacionais e de real capacidade de negociação, entre si e com o poder executivo[…]».

Curiosamente, MLR e PGuinote escolhem o mesmo episódio (a greve aos exames de 2005) para ilustrar o poder “mal usado” pelos sindicatos, uma queixando-se da ingovernabilidade do sistema, o outro queixando-se do “falhanço” da greve (sem explicitar as causas para esse insucesso) como o ponto de partida no ataque sofrido pelos professores, apanhados como “vítimas colaterais” numa guerra com que “nada tinham a ver”.

Afinal, quando menos se espera, encontramos umas quantas afinidades mesmo entre inimigos tão “determinados”… quanto mais não seja há algo em comum que os move – o poder excessivo dos sindicatos anterior a 2005 [1], [2], [3], [4]

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