Etiquetas

, , ,

Ando a ler “As Voltas que o Mundo Dá… reflexões a propósito das aventuras e desventuras do Estado Social”.

Trata-se de uma obra de António Avelãs Nunes, em que o autor se debruça sobre o papel das correntes do chamado socialismo democrático (socialistas, sociais-democratas e trabalhistas) na gestão do capitalismo global, analisando em particular a intervenção dos socialistas europeus na construção da União Europeia, em que o pensamento neoliberal se tornou hegemónico.

A ironia do título funda-se exactamente na contradição entre o discurso e a praxis dessas correntes, sobretudo das que se ancoraram na 3ª via de Blair, como Zapatero em Espanha e Sócrates em Portugal.

Acontece que a leitura do texto de AAN também faz ressaltar outras contradições, permitindo pôr em destaque outras voltas que o mundo dá, pelo menos para outros actores.

A chegada de Maria de Lurdes Rodrigues ao ME ficou marcada pela determinação com que ela e a sua equipa se concentraram no ataque ao movimento sindical docente. Entre 2005 e 2008, o maior esforço comunicacional desenvolvido pelo ministério teve como pressuposto a necessidade de isolar os sindicatos e os seus dirigentes em relação aos professores e às escolas.

A criação do conselho de escolas e, anteriormente, as reuniões da equipa ministerial com os conselhos executivos inseriu-se numa lógica de negociação directa excludente das estruturas de representação sindical.

Mesmo numa altura em que eram já milhares os professores que se manifestavam nas ruas, por todo o país, o discurso dos governantes e dos seus acólitos insistia na ideia de que eram apenas os sindicalistas que reclamavam e que os professores e as escolas trabalhavam normalmente. É factual e quem não for desmemoriado há-de lembrar-se.

É por isso que não deixa de ser curioso que, numa altura em que MLR está retirada na sua reforma dourada na FLAD, sejam professores, em particular os que se tornaram mais mediáticos na sequência da manifestação de 8 de Março de 2008, a recuperar o discurso sobre a não representatividade dos sindicatos de professores. Como se os membros dos sindicatos de professores não trabalhassem na escola pública e não tivessem as mesmas preocupações e dificuldades dos colegas que preferem não se sindicalizar.

O discurso de menorização da capacidade crítica dos professores em função da sua pertença a um colectivo, com frases do tipo «eu penso pela minha cabeça» ou «os que seguem as orientações dos sindicatos comportam-se como carneiros», além de ser ofensivo para quem acredita que a união faz a força, carece de rigor e verdade.

De resto foi Keynes, na conferência “The End of Laissez-faire” proferida em 1924, quem afirmou «Não é verdade que o interesse próprio seja, em regra, esclarecidamente entendido; a maior parte das vezes os indivíduos que actuam isoladamente para prosseguir os seus próprios objectivos são demasiado ignorantes, ou demasiado fracos, mesmo para atingir esses objectivos. A experiência não mostra que, quando os indivíduos formam uma unidade social, sejam sempre menos esclarecidos do que quando actuam separadamente.»

Advertisements