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Uma leitora do blogue levantou-me algumas questões num comentário.

As perguntas são as seguintes:

  1. Não acha que o currículo dos alunos é demasiado sobrecarregado? E demasiado uniforme?
  2. Estando tantas horas em aulas, como podem ter tempo para o trabalho individual, autónomo,para actividades escolares ou não escolares,que lhes interessem e possam escolher ?
  3. Haverá ou não disciplinas nobres? Ou essenciais para a formação do indivíduo? Ou anteriores a outras? Ou mais difíceis, apesar de supostamente essenciais?
  4. A escola deve ser a tempo inteiro para todos, mesmo para os que queiram e possam ir para casa depois de uma manhã de aulas? Eu até admito,veja lá, que as escolas venham a ter dormitórios,pois há pais que trabalham por turnos,de dia ou de noite…mas não me parece que a escola tenha de ser igual para todos durante 24 horas por dia…

Embora não tenha uma resposta definitiva para estas questões, a sua pertinência leva-me a tecer algumas considerações:

  • 1. Acho que a “extensão” do currículo se deve a uma visão compartimentada e especializada dos saberes disciplinares. Não me parece que haja homogeneização curricular, antes pelo contrário, a disciplinarização dos saberes, ao impedir uma visão holística do mundo, acaba por promover a pulverização de saberes sem que se perceba qualquer interacção entre eles.
  • 2. O número de horas de aulas diárias é excessivo exactamente em função da visão compartimentada e segmentar dos saberes. E isso é fruto da luta política que todos os grupos disciplinares travam em busca de um recurso escasso – o tempo. Se há algum aplauso pelo fim da área de projecto é porque ela não constitui, em si mesma, uma disciplina. Pelo contrário, poderia ser exactamente esse espaço e esse tempo em que, através da síntese entre diferentes saberes, o trabalho individual e autónomo do aluno o conduzisse à visão holística do mundo a que me referi no ponto anterior. Só que isso implicaria o fim da “nobreza”, da “essencialidade” ou da “anterioridade” de algumas disciplinas em relação a outras, o que significa que
  • 3. discordo em absoluto com a categorização das disciplinas que a comentadora Maria Fernanda apresenta. De resto, sobre o assunto, socorro-me de um texto de Mário Sérgio Cortella – A ESCOLA E O CONHECIMENTO, onde se pode ler na página 2:

«Era menos instável viver na Idade Média, quando tudo estava em “ordem”: a Terra no centro do Universo, o Homem no centro da Terra, a Alma no centro do Homem e Deus no centro da Alma. Foram os 500 anos mais recentes que nos “descentralizaram”, com Copérnico, Galileu, Darwin, Freud e outros. Afinal o que é, para nós, a vida, senão o intervalo entre nascer e morrer ? Essa constatação nos torna únicos: o homem é o único animal que sabe que vai morrer e, por isso, não é de estranhar a sensação de angústia de muitos. Albert Camus já explicava que o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. Porque não faz sentido, nós o construímos.»

e mais à frente, na página 3

«Entretanto, valores, conhecimentos e conceitos (e pré-conceitos) devem mudar porque ser humano é ser capaz de ser diferente. O significado dessas referências não é do mesmo modo para todos, sempre, pois é moldado pela cultura, pela sociedade e pela história dessa cultura, ou seja, todo símbolo (conhecimentos e valores) é relativo e não pode ser examinado por si só. Embora a individualidade gere um ponto de vista particular sobre isso tudo, a construção é coletiva, o que implica em uma vida política onde se negocia, produz e conquista significado. Por isso a produção dos valores não é neutra, dependente do poder de quem possui. A posição de predominância social significa, então, ter seus valores e conhecimentos difundidos e aceitos pela maioria como se fossem próprios ou universais, seja por imposição ou convencimento. O canal de conservação e inovação são as instituições sociais, os responsáveis pelos processos educativos da longa infância humana. A educação assim, além de ser basal, divide-se em vivencial/espontânea (vivendo e aprendendo) e intencional/propositada (deliberada, em locais determinados com instrumentos específicos). Por isso, os processos pedagógicos não são neutros, envolvidos que estão na conservação ou na inovação do grupo. Ver além do próprio grupo, história, visão, conceito, significa uma visão de alteridade que permite identificar no outro (e em nós mesmos) o caráter múltiplo da Humanidade. É superar a obsessão evolucionista de que o passado é sinônimo de atraso, a verdade uma conquista inevitável e a ciência a redenção da humanidade…. Não há um produto acabado, mas por construir.»

  • 4. Discordo também do conceito de “escola a tempo inteiro” porque isso significaria a escolarização de toda a aprendizagem, afastando a responsabilidade colectiva da família e da comunidade quanto ao desenvolvimento e aprendizagens das crianças e jovens. O que defendo é uma escola que funcione num único turno, em que haja espaço e tempo para além das disciplinas, dos conteúdos programáticos e do utilitarismo de um conhecimento que é sempre contextualizado e dependente das relações de poder existentes na sociedade.

Em conclusão, penso que a escola precisa de ensinar a ver a árvore, mas não pode deixar de ensinar a perceber a floresta, sob pena de reduzir o aluno a um futuro autómato ao serviço de algo que nunca conseguirá entender, porque se limita a olhar e ver uma colecção de árvores, mais ou menos diferentes de si mesmo.

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