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Já na fase final da ditadura colonial fascista, durante os anos da denominada primavera marcelista, tive oportunidade de contactar de perto com a realidade dos contratados.

O contratato era uma instituição que permitia aos fazendeiros do Norte de Angola terem mão-de-obra quase escrava por tempo indeterminado. Fosse nas fazendas de café ou nas plantações de banana, todo o fazendeiro tinha também uma cantina que fornecia produtos básicos para o quotidiano dos seus contratados – farinha, açúcar, óleo e peixe seco, roupa e calçado – a que se juntava a cerveja e uma zurrapa a que davam o nome de vinho.

Os contratados, que chegavam de kimbos situados a centenas de kilómetros mais para sul, abasteciam-se nessas cantinas ficando a dever o que o cantineiro ia apontando num caderninho, isto é, todos os produtos adquiridos e mais uns quantos que acrescentava a seu belo prazer. No final do contrato, quando se fazia o acerto de contas, o contratado era invariavelmente devedor de quantias superiores ao montante a que tinha direito pelo trabalho de meses, vendo-se obrigado a ficar na fazenda a trabalhar para o patrão para pagar a sua dívida, que não parava de aumentar porque a cantina continuava a ser o único lugar onde podia comprar tudo o que necessitava.

Olhando para a situação em que se encontra o nosso país recordo-me desses contratados. Aderimos à CEE/UE e, em troca de um paraíso prometido que eram os fundos comunitários, destruímos a produção agrícola e abatemos a frota pesqueira e parte significativa da produção industrial. Isso era uma coisa boa porque passávamos a comprar produtos mais baratos, normalizados e calibrados, com todas as condições higiénicas e nutricionais. Só que tinhamos que passar a comprá-los aos cantineiros franceses, alemães, espanhóis e italianos.

Agora encontramo-nos na situação daqueles pobres contratados que conheci em fazendas do Kwanza Norte. Os bancos europeus, comportando-se como os cantineiros dessas fazendas, decidem quanto nos cobram de juro pelo dinheiro que necessitamos para sobreviver. A fazendeira alemã, acompanhada pelo seu vizinho francês e pelos capatazes que governam este quintal, decidem que temos que ter políticas orçamentais tão restritivas que nos impedem que um dia, mesmo que longínquo, venhamos a pagar a dívida que não pára de aumentar.

Ao contrário da mistificação propagandeada diariamente na comunicação social, não são os salários indignos e a precariedade crescente que nos impedem de competir com os mercados emergentes da Ásia ou da América Latina. São os juros usurários definidos por agências de rating manhosas e ao serviço dos banqueiros alemães e franceses. Ou alguém imagina que os países que crescem a mais de 10% ao ano se financiam no mercado com taxas de juro de 6%?

A crise não é global e nem sequer europeia. Países como a China, a Índia e o Brasil libertaram-se da servidão, passando a produzir em vez de comprar no estrangeiro.

Mesmo entre os europeus, os detentores do capital nunca acumularam tantos lucros como nos últimos anos. Basta consultar as contas de bancos, seguradoras e outras instituições financeiras.

Sendo assim, é chegada a hora de mudar os políticos que não passam de capatazes servis dos grandes europeus e, mudando de políticas, soltarmos finalmente o nosso grito do ipiranga.

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