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Anda no ar um arôma de “alternância” que aguça os sentidos e os apetites de uns quantos “lutadores antisocratinos”.

Ouvindo e lendo os comentários dos actores a quem o poder mediático dá voz constata-se que, enquanto uns poucos fazem gala em não se atirar com demasiada sede ao pote, muitos outros não se inibem de calçar botins de tacão alto para se destacarem da populaça que espera arrebanhar umas migalhas no festim ultra liberal que se adivinha. Tudo em nome da sacrossanta liberdade, da igualdade e, quiçá, da fraternidade.

A utilização desta trilogia, na qual assentou o ideário liberal que sustentou a revolução burguesa vitoriosa sobre a aristocracia do antigo regime, continua hoje a ser comum a todos quantos decretaram a erradicação das classes sociais, como se por artes mágicas tivesse deixado de haver burgueses e trabalhadores, detentores dos meios de produção e gente que apenas dispõe da força do seu trabalho e do seu conhecimento para vender, capitalistas e pessoas despojadas de bens materiais, patrões e assalariados. Resumindo, podemos incluir aqui todos quantos entendem que a luta de classes é coisa do passado e que somos todos titulares dos mesmos direitos e deveres.

Em nome de uma alegada liberdade de escolha (voto) e igualdade, a classe que há dois séculos fez uma revolução sangrenta para substituir os anteriores proprietários mantém a maioria do povo anestesiado, acenando-lhe com a miragem do acesso ao bem estar e do direito a escolher e ser escolhido.

Mas a história mostra-nos que, desde o seu início, o liberalismo foi sempre classista e discriminatório. A concepção liberal do Estado mínimo, completamente separado da economia, serve apenas a manutenção da ordem social na medida em que isso seja propício ao desenvolvimento económico e ao lucro das empresas.

Os liberais nunca se eximiram de exigir ao Estado legislação que disciplinasse os trabalhadores e é isso que hoje impõem ao reclamar, através dos seus porta-vozes (economistas, comentadores, jornalistas), a diminuição dos salários e a suspensão de medidas de carácter social, em nome da defesa de um “bem comum” que exclui desse comum milhões de desempregados e assalariados precários, que mal sobrevivem com ordenados de miséria.

Ao mesmo tempo que reclamam do Estado o financiamento do ensino privado, exigem a reposição de um currículo que exclui as classes mais desfavorecidas, negando-lhes o acesso ao diploma e assim garantindo a estratificação social.

Quando os burgueses que há muito se apoderaram do PS português (recorde-se a disputa entre Mário Soares/Almeida Santos e Salgado Zenha) se apresentam como defensores da igualdade social, é preciso perceber que mais não querem do que a acalmia das classes trabalhadoras e o seu afastamento da revolução social. Mesmo quando, nessas alturas, têm a “feroz” oposição dos liberais do PSD e do PP.

Trata-se de uma mistificação que vêm do passado e em que, em nome de alegados princípios humanistas, defende o interesse dos proprietários e do capital, os quais determinam a concepção das leis. Como aconteceu quando em 1841 foi aprovada uma lei em que se fixava nos 8 (oito ) anos a idade de admissão das crianças no mercado de trabalho, mas permitindo que a partir dos 12 (doze) elas trabalhassem 72 (setenta e duas) horas por semana. Tratando-se de uma lei que aparentemente se destinava a preservar as crianças mais novas de uma exploração ignóbil, o seu maior interesse era proteger os interesses de médio prazo dos empresários, já que os estudos realizados à data, tanto em França como em Inglaterra, mostravam que as condições de trabalho nas fábricas e o emprego precoce das crianças estavam a provocar uma profunda delapidação do “capital humano“. Ainda assim houve muitos patrões que se opuseram, invocando a ingerência do Estado na economia e um atentado inadmissível contra a liberdade (das empresas, claro).

Hoje, como ontem, importa ver por trás do jogo de sombras com que a burguesia capitalista mascara as suas verdadeiras intenções e actividades. Isso passa pela necessidade de procurar informação e esclarecimento, mas sobretudo pela capacidade crítica de não aceitar a naturalização de rotinas que perpetuam as desigualdades e a exploração das pessoas.  Nem que para isso seja necessário invocar o Casimiro Baltasar da Conceição:

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