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Apenas 80 anos separam a grande depressão de 1929 e a crise financeira de 2009. Entre estes dois eventos existem demasiadas semelhanças e uma significativa diferença.

Antes de mais importa registar que ambos os eventos consubstanciam exemplos concretos do que Marx e outros economistas, como Malthus, haviam identificado como as crises do capitalismo, que decorrem do facto de a lógica do processo de acumulação do capital visar a maximização do lucro sem se preocupar com a alegada “satisfação das necessidades” da sociedade, que não passa do seu alibi moral.

Da prossecução desta lógica resulta que, quando o objectivo de maximização do lucro não é alcançado, a solução é baixar a produção destruindo o capital existente e deixando de utilizar os recursos disponíveis, mesmo quando isso significa o sacrifício do consumo e da satisfação das necessidades básicas de milhões de pessoas que são atiradas para o desemprego e para a pobreza, quando não para a indigência absoluta.

Se as semelhanças entre 1929 e 2009 são evidentes, na medida em que em ambos os casos a euforia bolsista, a especulação e o consumo desenfreado foram o pano de fundo em que assentou o “alegre caminhar para a crise”, a diferença substancial entre estas crises reside no facto de em 1929 a burguesia capitalista estar ainda em estado de choque com a vitória bolchevique e a consolidação do poder soviético, ao passo que o processo que culminou com a crise do “subprime” parece ter sido ancorado no “fim da história”, que alegadamente representaria a queda do muro de Berlim e a implosão da União Soviética.

Se na década de 30 do século passado os capitalistas tiveram que se socorrer do New Deal e das teorias Keynesianas para evitar o alastramento da revolução, a percepção de que a organização da classe trabalhadora é hoje mais débil, e não possui o suporte institucional que lhe era dado pela existência de apoio internacional, permite que a ofensiva do capitalismo assuma uma face selvagem que se julgava já inexistente.

Sob a capa de uma democracia formal, em que os detentores do capital exercem uma ditadura da burguesia, a classe trabalhadora é despojada totalmente da sua dignidade, obrigada a vender a força do seu trabalho e do seu saber por valores injustos e a pagar os bens e serviços de que necessita a preços que engordam os enormes lucros dos detentores desse capital [vidé lucros da banca e empresas finaceiras].

E para que a indignidade ainda seja maior os trabalhadores têm que ouvir da boca dos lacaios do poder (jornalistas, comentadores, “economistas encartados” e quejandos) a estória da carochinha da preguiça natural das classes trabalhadoras, segundo a qual a culpa da crise é sua, porque «como toda a gente sabe, o objectivo de qualquer trabalhador precário é tornar-se efectivo para poder deixar de se esforçar e, a partir desse dia, exigir mais salário e menos trabalho».

Claro que nessa explicação se omite que o burguês detentor do capital (como no antigo regime o nobre) não precisa de mexer uma palha para ir enriquecendo a cada dia que passa… basta-lhe acordar vivo, e quando morrer deixar herdeiro que lhe cuide da renda.

É fundamental que os trabalhadores entendam o que está em jogo na luta política e no quotidiano da polis, não se deixando iludir pela quimera do “elevador social” que visa anestesiar as legítimas reivindicações da sua classe. É preciso não esquecer que as classes sociais continuam a existir e que os seus interesses não são iguais, mesmo quando parecem convergir. Não pode ser ignorado que nesta luta, como em qualquer combate, quem estiver melhor preparado, mais empenhado e for mais unido terá maior hipótese de vencer.

É tempo de os professores perceberem quem são e de que lado da barricada estão em mais este confronto social: se do lado do trabalho, enquanto trabalhadores intelectuais e operários do conhecimento e do saber, se do lado do capital e ao serviço da exploração de outros homens, alegadamente detentores da mesma dignidade social e da mesma liberdade e igualdade de oportunidades mas na prática despojados de todos os direitos.

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