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O puzzle está quase terminado. As últimas peças estão prestes a encaixar e já estão claros os contornos do quadro final.

No entanto ainda existem margens de liberdade para a acção dos professores, seja para se conformarem às decisões da classe dominante, seja para tomarem em mãos a refundação de uma escola de qualidade, em que a coeducação entre rapazes e raparigas, ricos e pobres, nacionais e filhos de imigrantes, faça parte do futuro da escola em Portugal.

A concentração centralista das “mega-unidades de gestão” é de uma absoluta irracionalidade pedagógica, administrativa e até económica. Toda a literatura sobre a governança e sobre o new public management aponta para movimentos de descentralização e desconcentração da administração, procurando uma gestão de proximidade, em que o decisor esteja em interacção constante com os destinatários da decisão.

Concentrar a administração e a gestão de escolas dispersas e separadas fisicamente, muitas vezes por dezenas de kms, contraria todos estes princípios, o que parece significar inconsciência ou irracionalidade de quem tomou tal decisão.

Apesar dessa “evidência” quer-me parecer que não é o caso, e que esta aparente irracionalidade obedece a mais uma fase do processo, meticulosamente desenhado desde 2005, de alienar a escola pública, entregando-a a retalho a privados e parcerias autárquico-privadas.

Pode parecer um contra-censo que se concentre e junte por grosso agora, para vender a retalho dentro de poucos anos. Mas, mais uma vez, é apenas aparência. Esta fase de concentração é apenas o ingrediente final do plano, já que permitirá a demonstração da “evidência” que falta ao discurso de retirada total do Estado das suas responsabilidades educativas: a escola pública (estas mega-escolas que agora estão a ser criadas) é ingovernável e, como tal, o Estado irá pedir à iniciativa privada que se sacrifique, assumindo o ónus de “gerir o ingerível”. Evidentemente que, para que haja “compradores”, a dimensão terá que ser ajustada e, nessa altura, proceder-se-á à fragmentação do que agora está a ser agrupado, para permitir uma mais fácil “colocação no mercado”.

É aqui que poderá haver uma pequena margem para fazer regressar a democracia à escola e para garantir uma educação universal de qualidade. Passa por formas de associação dos professores com a comunidade, pelo regresso aos ideias cooperativos e pela assumpção de uma consciência de classe que seja capaz de se opor ao projecto de transformar a educação num bem exclusivamente transacionável.

Seremos capazes de vencer este desafio?

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