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Tentar olhar para os “problemas” dos professores, e para a “crise” da escola pública, fora do contexto das alterações que se verificam na sociedade, à escala global, é um exercício com pouco sentido e que apenas nos coloca um pouco na posição de “Calimeros” sem capacidade de intervenção.

O que, por si só, constitui um completo absurdo, numa altura em que os novos modos de regulação das políticas públicas se ajustam a uma cada vez maior capacidade de intervenção dos actores locais, redistribuindo e repartindo o poder entre governantes e governados.

Quando ouvimos os governantes nacionais, mas também os não eleitos supranacionais (como é o caso dos comissários europeus, ou dos “experts” das agências transnacionais tipo OCDE, FMI/BM, UNESCO, ONU e quejandos), afirmarem que a única solução para a crise global é reverter as relações laborais ao padrão do século XIX (quando não do início da revolução industrial) só há uma atitude a tomar: cerrar fileiras e não acreditar em mentirosos.

Porque aquilo que nos vendem como “crise financeira global” não passa de um processo de reajustamento entre as economias de pilhagem, consubstanciadas na apropriação individual do capital das multinacionais sediadas nos Estados Unidos e na Europa do Norte, e as economias emergentes do Sul, consubstanciadas na capacidade produtiva e na riqueza de matérias primas da Ásia, África e América Latina.

A agenda globalmente estruturada para a educação visa formar e qualificar mão de obra barata e acrítica, ao serviço do capital multinacional. Numa altura em que todas as projecções económicas e financeiras convergem no sentido de que se verificará uma redistribuição da riqueza global, de forma que a China, a Índia e a América Latina serão detentoras de cerca de 70% da riqueza mundial nos próximos 20 anos, torna-se claro que os capitalistas europeus e norte-americanos se agitem e procurem evitar essa inversão de valores.

A questão é saber se essa deslocação da riqueza se pode, ou não, traduzir em ganhos na qualidade de vida de milhões de seres humanos. E a resposta, no momento em que a Europa e o “Ocidente” vivem uma “crise arrasadora”, é que o nível de vida da esmagadora maioria da população dos países emergentes é significativamente melhor.

Há alguns dias atrás, quando perguntaram a Lula da Silva como é que o Brasil estava a conseguir enfrentar a crise com sucesso, ele respondeu «Oi, cara, isso é fácil. A gente ajudou alguns milhões de brasileiros miseráveis a sair da pobreza, atribuindo uma renda que permitiu que assim eles tivessem acesso a uma cesta básica de produtos. Esses produtos são fabricados por empresas brasileiras que, com isso, vão melhorando seu desempenho no mercado, arrecadando maiores ingressos e pagando mais impostos.»

Quando nos vendem a ideia de que não há alternativas a Sócrates que não passem por Passos Coelhos, talvez seja de perguntar porque é que os “defensores do mercado” não consideram a possibilidade de as empresas (quiçá o Estado português) se financiarem junto de bancos chineses. Porque raio temos que pagar juros usurários a bancos franceses e alemães, que se financiam junto do BCE a taxas baixíssimas, o qual, por sua vez, obtém os seus fundos através dos impostos cobrados aos cidadãos europeus?

É por essas (e por outras) que os governos “ocidentais” tanto se esforçam por impor aos sistemas educativas as práticas da “nova gestão pública”, introduzida nos idos de 80 por Reagan & Tatcher e recuperada pela 3ª via blairista/soarista/socratista como o “new public manegement”.

É nas práticas dessa “nova gestão pública” que encontramos as raízes da “crise da escola” que vivemos, com a tentação totalitária e centralista de redução de custos a qualquer preço, com vista a rentabilizar o “investimento na produção de capital humano”.

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