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Numa altura em que algumas vozes se vão levantando e assinalando os absurdos da sociedade dual em que vivemos, como é o caso de Boaventura Sousa Santos na crónica referida em post anterior, ou de Cohn-Bendit na sua intervenção no PE, é interessante recordar os princípios defendidos por homens que, na transição do séc. XIX para o séc. XX, contribuíram para um pensamento pedagógico de esquerda:

Existe um tesouro natural, em cuja formação os homens não intervieram, e outro artificial, que se foi acumulando com o concurso dos observadores, dos pensadores e dos trabalhadores de todos os tempos e países […]

Se estes tesouros não têm um criador individual na nossa espécie, nem na geração vivente, torna-se claro que a apropriação individual, a transmissão hereditária e o gozo das vantagens consequentes por um certo número de privilegiados, com exclusão de um outro número infinitamente maior dos que permanecem deserdados na miséria e na ignorância, não têm razão de ser, são um absurdo, constituem uma usurpação.

É assim: não busquemos causadores nem responsáveis; não demos vã satisfação ao sentimento, buscando o inimigo a quem queiramos assombrar com as nossas queixas, ou destruir com a nossa ira, mas reconheçamos o facto em toda a sua simplicidade: a grande riqueza natural e a não menor riqueza social, que juntas formam o património da humanidade, vêm sendo detidas por um número relativamente pequeno de privilegiados, desde o brâmane ao burguês, com prejuízo de todos os explorados e oprimidos do mundo, desde o pária ao jornaleiro, usando as designações dessas classes históricas como representação de todas as desigualdades mais ou menos conhecidas, que tenham existido entre os homens.

Obra humana é o dualismo que tanto mal nos faz, obra humana será o monismo reparador que nos há-de favorecer.

Antes dos legisladores terem codificado a injustiça, legalizando a usurpação proprietária e o despojo das classes ínfimas, já os sacerdotes tinham santificado a ignorância com o esoterismo, reservando-se com o esoterismo o privilégio do saber. Assim se criou o absurdo anti-solidário que representa o dualismo que nos divide, causador do antagonismo que corrói a sociedade.

Lorenzo, Anselmo. Prólogo a la edición original, in Ferrer, Francisco. La Escuela Moderna. (2009) Barcelona: Tusquets Editores