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Como tentei explicar, a interrupção na actividade do blogue ficou a dever-se à necessidade que tive de me concentrar nas tarefas relacionadas com a escola, mas também com o cumprimento de alguns prazos para entrega de trabalhos em curso.

Serviu ainda para um afastamento de um tipo de controvérsia, que nem tem verdadeiramente estatuto de debate, em que me vinha envolvendo com pessoas de quem esperava um pouco mais de qualidade argumentativa, mas que preferem manter-se em registos próximos dos diversos fóruns que inundam os media tradicionais. Foi um afastamento de que senti necessidade e que pretendo manter, na medida do possível.

Quando escrevi o primeiro post do (Re)Flexões, em Julho de 2007, interrogava-me sobre a forma como cada um de nós pode contribuir para a regulação das políticas públicas, deixando duas questões em análise:

Ao longo destes quase três anos muita coisa aconteceu no nosso país e no mundo. No campo da educação estamos hoje em situação bem diversa da que se vivia no final do ano lectivo 2006/07. Mesmo para quem acha que, se algo mudou, foi para pior.

De qualquer forma muito há ainda para mudar e construir, não só na educação, mas em todas as políticas públicas. E a interrogação de 2007 continua a ser pertinente, sendo que hoje se agravaram as condições de vida dos trabalhadores, mas não deixou de existir a possibilidade de cada um de nós ser actor na acção pública que é urgente.

Bem sei que a ironia e o escárnio são armas de combate contra os poderes instituídos. Mas não são os únicos e nem estou de acordo com quem os considera os mais poderosos.

Por mim continuo a pensar que a informação, o conhecimento e o debate são as formas mais expeditas de conter os ataques de que estamos a ser alvo.

O PEC, que nos é vendido pelo governo como a única solução para o país, ou a sua versão n.º II ou III, que o directório dos bancos alemães e franceses nos está a impor por interpostos ministros das finanças, reunidos nos “ecofin’s” em Bruxelas, não passa de um instrumento político, desenhado em função das opções de quem governa, mesmo quando eleito por nós.

Quando nos pintam estes instrumentos de contenção do défice como eminentemente técnicos, como se não veiculassem opções ideológicas, os governantes dos países europeus mentem com quantos dentes têm na boca. Quem nos vem dizer que foram Sarkozy e Merkel quem obrigou Sócrates e Zapatero a reduzir o défice para 3% em quatro anos, esconde que Sócrates e Zapatero são co-autores da decisão, e estão de acordo com ela, porque não passam de executores de políticas decididas pelo capital multinacional, não sujeito a escrutíneo dos cidadãos europeus.

O senhor Trichet e o senhor Constâncio não foram eleitos por nenhum europeu para desempenhar os cargos que ocupam no BCE. No entanto financiam a banca comercial à taxa que eles decidem, e permitem que essa banca comercial imponha juros usurários aos governos europeus e às empresas que necessitam de se financiar para produzir crescimento económico.

Sobre estas questões, infelizmente, pouco se fala na comunicação social, mas também na maioria dos blogues por onde passo. Talvez não seja um tema que cative muitos leitores. E quem se preocupa com audiências tem que se preocupar com os gostos dos utilizadores.

Num texto reflexivo sobre o que a investigação educacional sabe, e sobre o que precisa de saber, a cerca da melhoria das escolas, Ben Levin interroga-se porque é que em muitas escolas de risco não se aplicam princípios geralmente aceites sobre a sua melhoria. A resposta que encontra é emblemática, e talvez se possa transpor para o debate em torno do que se discute e como se discute, na blogosfera portuguesa que se dedica à coisa pública:

«Há duas razões principais pelas quais as pessoas não fazem o que sabem que seria bom fazer. Ou têm falta de capacidade ou falta de vontade.»
Levin, B. (2006), Schools in Challenging Circumstances: A reflection on what we know and what we need to know, School Effectiveness and School Improvement, Vol. 17, No. 4, Dezembro 2006, pp. 339-407

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