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Ao longo dos próximos meses, começando já com o tema do OE 2010, vamos ser bombardeados com a conversa sobre o “interesse nacional”.

Ainda esta noite, o presidente da república fez um apelo ao parlamento para que em nome do “interesse nacional” houvesse um entendimento entre governo e oposição. Porque, conforme as palavras de Cavaco Silva, o “interesse nacional” deve levar-nos a evitar que outros nos imponham rigor e austeridade nas contas públicas e no desenvolvimento da nossa economia.

Em nome do tal “interesse nacional”, o governo e o PS acham que devemos aplicar os magros recursos do país na construção de grandes obras públicas que dinamizem o tecido económico: TGV, NAL e mais umas centenas de km de auto-estradas.

Curiosamente, em nome do mesmo “interesse nacional”, PSD, CDS e ao que parece também o presidente acham que não se devem fazer todos esses investimentos e, pelo contrário, o esforço deve ser feito na dinamização do tecido empresarial exportador através do apoio às pequenas e médias empresas que criam emprego.

Nesta questão do emprego e da revitalização do sector produtivo também se juntam as vozes dos partidos da esquerda parlamentar, que em nome do “interesse nacional” acham que tem que haver investimento público que apoie as micro, pequenas e médias empresas e proteja os desempregados e as populações mais carenciadas.

Ouvido assim um cidadão fica confuso. Então se todos defendem o “interesse nacional” não seria natural que tivessem soluções idênticas para o “problema”. Só que “o problema” não é igual para todos e aqui coloca-se a questão de saber quem define, e em que condições, o que é o “interesse nacional”.

Dirão uns que é o governo, porque tem legitimidade eleitoral para o fazer. Mas o presidente também tem a mesma, ou eventualmente maior legitimidade, e no entanto tem um entendimento diverso do do governo quanto ao “interesse nacional”.

E depois, essa coisa de alguns poucos definirem um “interesse nacional” que, por definição, tem que abranger a totalidade dos cidadãos é um pouco estranha. Afinal de contas como podemos falar de “interesse nacional” quando sabemos ser inconciliável o interesse de quem manda e o interesse de quem é mandado?

Falando da educação e da escola pública, como é possível achar que existe um interesse comum entre quem defende uma escola em que todos aprendam e quem defende uma escola que selecciona os melhores e deixa para trás os que têm dificuldades? Entre quem quer uma profissão docente dignificada e qualificada e quem pretende ter técnicos de educação desqualificados e precarizados, que garantam um contingente de mão-de-obra barata?

Se passarmos para outros sectores poderemos repetir as perguntas e teremos as mesmas respostas.

Por isso, ouvir o presidente e os partidos da direita (incluindo nela os apoiantes de Pinto de Sousa) falar em interesse nacional é motivo para uma estrondosa gargalhada. E para arregaçarmos as mangas para a luta, porque em nome do tal “interesse nacional” ainda vamos ver o PSD e o CDS apoiarem o ECD que o governo nos quer impor, no sentido de promover a contenção orçamental e a diminuição do défice. É que a única coisa que o “interesse nacional” deles lhes permite fazer é cortar nos salários de quem trabalha, para que os lucros do capital não sejam tocados.

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