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(*) [E vi dente mente] é o título de uma obra de leitura imprescindível para professores, publicada pela ASA e da autoria do reitor da UL, António Nóvoa.

Já a mencionei no blogue, mas a utilização recorrente de evidências fundamentadas em observações a “olhómetro”, por parte de quem tanto critica a investigação e os investigadores da educação, faz-me regressar ao que está escrito nessa obra:

Evidentemente.

Tudo são evidências nos textos e nos debates, nas políticas e nas reformas educativas. Ninguém tem dúvidas. Todos têm certezas. Definitivas.

Evidências do senso comum. Falsas evidências. Continuamente desmentidas.

Continuamente repetidas.

Crenças. Doutrinas. Visões. Dogmas. Tudo misturado numa amálgama de ilusões.

É evidente que só pela educação se conseguirá a regeneração, e o progresso, e a modernização, e a industrialização, e o desenvolvimento do país. Evidentemente.

Os reformadores oitocentistas não hesitam quanto ao papel da educação. Menos dúvidas ainda têm os políticos republicanos, e os conservadores nacionalistas, e os tecnocratas liberais, e os democratas progressistas. Evidentemente.

Os pedagogos têm crenças inabaláveis na educação. Os anti-pedagogos também.

São crenças iguais, por vezes de sinal contrário. Para transformar ou para conservar, para revolucionar ou para perpetuar, nada melhor do que a educação.

Evidentemente.

Os educadores laicos conhecem as razões da decadência civilizacional. Os educadores religiosos as da decadência moral. Uns e outros sabem que tudo se resolverá pela educação. Não há outro lugar da sociedade tão carregado de crenças e convicções.

O meu trabalho pára em 1974. Mas poderia continuar até hoje. Pouco ou nada se alterariam as evidências. Quando se trata de educação, nenhum político tem dúvidas, nenhum comentador se engana, nenhum português hesita. Palavras gastas. Inúteis.

Banalidades. Mentiras. O que é evidente, mente. Evidentemente.

Tudo isto nasce de um equívoco, tantas vezes denunciado e sempre ignorado: a educação nunca fez e nunca realizará uma mudança revolucionária (Pierre Furter, 1970). É outra a força da educação. É outra a sua importância. Cultura. Arte. Ciência.

Lucidez. Razão. Invenção. Evidentemente, a educação. Ainda iremos a tempo?

Nóvoa, A. (2005), e vi dente mente, Edições ASA-Porto

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