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A campanha de bipolarização do voto de 27 de Setembro já começou há muito. Na verdade (re)começou na noite da vitória eleitoral do PSD, nas europeias de Junho, e tem vindo a acentuar-se à medida que se aproxima a data da eleição dos deputados à Assembleia da República.

Trata-se de um “dejá vu” da política à portuguesa, alimentado pelos privilegiados do regime e por uma corte de comentadores que vivem “à babugem”, alimentando-se das migalhas dos poderosos.

É por isso que diariamente somos bombardeados com as análises que, ora afirmam que o país ficará ingovernável se PSD ou PS não tiverem maioria absoluta, ora nos querem convencer que só há utilidade do voto se for num destes dois partidos, porque alegadamente só eles nos podem governar.

No entanto é preciso relembrar que cada voto entrado nas urnas tem exactamente a mesma utilidade à partida: somar-se a todos os restantes votos na mesma lista de deputados, para eleger as pessoas que nos representarão durante os próximos quatro anos na Assembleia da República. O número de deputados que cada lista (partido) elegerá será determinado pelo número de votos que essa lista recolher nas urnas.

De resto o processo está descrito com clareza no Portal do Cidadão:

Mandato de 4 anos;

Sistema eleitoral – representação proporcional (Método de Hondt);

22 Círculos eleitorais (18 distritos + 2 regiões autónomas + 2 círculos para residentes no estrangeiro);

230 Deputados;

Candidatos propostos pelos partidos políticos;

São eleitores todos os cidadãos nacionais recenseados;

Próxima eleição – 2009.

Mas o que é mais grave neste processo é que tanto os “analistas”, como quem lhes “paga” para fazer este tipo de “análises”, sabem bem que o voto é, em democracia, o método pelo qual cada cidadão tem direito a fazer as suas escolhas eleitorais (sendo que esse é um direito inalienável).

Tal como sabem que esse foi um direito duramente conquistado ao longo da História, como também recorda o mesmo Portal do Cidadão:

Embora hoje seja um direito universal, isto é, generalizado à grande maioria dos cidadãos, o exercício do voto foi durante muito tempo exclusivo de alguns grupos, nomeadamente ao nível das classes, da etnia e até do género.

O direito ao voto constitui-se assim como o resultado de muitas lutas e conquistas ao longo da História e, talvez por isso, existam países que decidiram fazer dele um acto obrigatório, como por exemplo o Brasil. Em Portugal, o voto não é uma obrigação, mas um direito consagrado na Constituição como um “dever cívico”, de alguma forma lembrando o esforço de alguns para oferecer a todos essa possibilidade.

Com este “truque” do voto útil o que se pretende é limitar o direito de escolha, que durante muito tempo foi negado à maioria da população, nomeadamente às mulheres e às classes mais desfavorecidas.

Sendo hoje pouco aceitável a prática do caciquismo, que era uma constante nos processos eleitorais do séc. XIX e XX, os novos caciques tudo fazem para convencer os cidadãos a abdicarem do seu direito de escolha em favor de uma alegada utilidade do voto, desde que seja a favor dos mesmos de sempre.

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