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Voltando à ideia vazia  sobre a ligação entre um Bom Ensino e a Autoridade, que está expressa num dos cartazes do CDS, proponho um olhar mais atento sobre o Bom Ensino.

Quando falamos de um ensino de qualidade e de uma escola pública que cumpra o desígnio de escolarizar toda a população, ao mesmo tempo que promove a equidade, é necessário reflectir entre outras coisas sobre o currículo.

Ora o currículo, embora nos seja vendido como um instrumento neutro da acção educativa da escola, reflecte necessariamente os interesses e as opções de quem tem o poder de o determinar.

Tomando como exemplo a formação profissional que é promovida e posta em prática por empresas, facilmente associamos os conteúdos curriculares de cada curso aos interesses específicos ligados à laboração de cada empresa. O contrário é que seria um absoluto disparate.

Neste caso aceitamos como natural e bom que o poder hierárquico (administração) exerça a sua autoridade (em nome dos accionistas) sobre os empregados que são seleccionados para se especializarem em determinadas funções, no sentido de aumentar a produtividade da empresa. Tudo claro e sem ambiguidades.

Do mesmo modo, olhando para uma instituição como as Forças Armadas, não nos custa aceitar que o topo da hierarquia defina o currículo de cada curso de formação das diferentes armas e especialidades. E que em seguida a cadeia hirárquica avalie o grau de cumprimento das determinações e exerça a sua autoridade para impor a cada escalão inferior a aplicação estrita das ordens dadas.

Mas será que é esse o modelo de escola pública que queremos? Quando falamos de escola para todos podemos admitir diferenciações de currículo como o que acontece nas forças armadas, com escolas de praças, de cabos, de sargentos e de oficiais, sendo que a admissão a cada um desses cursos depende de um processo de selecção à priori?

Não tenho dúvidas que as escolas onde se formam os militares são altamente eficazes e, do ponto de vista da instituição que servem, produzem um Bom Ensino. Os seus curricula são adequados aos fins perseguidos pela instituição e permitem cumprir a respectiva missão.

Como é evidente, poderá sempre aparecer alguém que proponha modelo semelhante para a escola pública. Convém é que explicite claramente a sua proposta.

É que muitas vezes, ao ouvir pessoas que ensinam na escola pública a concordar com frases ocas como a do cartaz eleitoral do CDS, fico com a sensação de que admitiriam como solução escolas diferentes para populações diferentes, às quais se deveriam aplicar regulamentos inspirados no RDM.

Por outro lado, como as afinidades ideológicas também ajudam a perceber muitas propostas ocultas, é interessante notar que o PP da Galiza, que actualmente governa aquela região espanhola, ainda há poucos dias aprovou generosos apoios a colégios que segregam as crianças em função do sexo (todos eles pertencentes à Opus Dei).

Os defensores da segregación por sexo nas aulas – pais e xornais ultracatólicos- chegan a afirmar, entre outras cousas, que tal segregación evita a violencia doméstica e a violencia sexista.

O caso é que o Consello da Xunta acaba de aprobar axudas millonarias a colexios privados que ofrecen educación segregada por xénero, apoiando así unha “formación diferenciada” por sexos, opción pedagóxica que está a rexurdir moi puntualmente en EE UU ou na Gran Bretaña. E en España? Dada a crecente “refascistización” da sociedade española, algo que resulta evidente en moitos ámbitos, non convén esquecer que existe unha Federación Española de Religiosos de Ensenanza (FERE), que aglutina a 2.400 centros católicos e que, aínda defendendo na actualidade un modelo mixto na educación, non chegaría a ver mal nun futuro a segregación dos alumnos en función do sexo. A propia Confapa (Confederación Católica de Federaciones de Asociaciones de Padres de Alumnos y Familias) ve a educación diferenciada como “unha opción de liberdade e un modelo de futuro”, e outórgalle a ésta amplas bases científicas, entre elas a existencia demostrada dun “dimorfismo sexual cerebral” – os cerebros feminino e masculino son “notabelmente diferentes”-, razón esta que require “unha resposta adecuada no âmbito da aprendizaxe e a educación”.

Miguel Anxo Fernán Vello, Segregacíón nas aulas, XORNAL DE GALICIA, 10 de Agosto 2009

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