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Na minha ida ao Porto, para assistir ao Curso de Verão sobre Liderança, Compromisso e Responsabilidade, tive a oportunidade de adquirir um livro que reputo de fundamental para quem queira entender o que tem acontecido nas últimas décadas em termos de políticas educativas, e que novos caminhos poderão ser percorridos.

«EM BUSCA DA BOA ESCOLA» de Jorge Ávila de Lima leva-nos a percorrer quatro décadas de investigação do que se passou a conhecer como o movimento das escolas eficazes, fazendo o mapeamento dos trabalhos mais significativos nesta área de conhecimento, a par de uma análise crítica sobre os olhares dos investigadores e o aproveitamento político-ideológico do seu trabalho.

“A pesquisa sobre a eficácia da escola constituiu, originalmente, um esforço para refutar a tese de que as escolas não fazem qualquer diferença na vida dos alunos. Foi focalizado nesta ideia simples, mas poderosa – a de que “a escola faz a diferença” – que um grupo diverso de investigadores produziu um conjunto importante e progressivamente alargado de estudos que procuraram demonstrar a existência de um “efeito de escola’:

A hipótese de um “efeito de escola” pressupôs que o sistema educativo deixasse de ser visto como uma entidade que se comporta do mesmo modo em todos os locais, de forma sincronizada, para passar a ser encarado como “a agregação de unidades múltiplas, cada uma das quais produzindo efeitos sensivelmente diferentes sobre os resultados escolares e/ou sobre a selecção escolar” (Cousin, 1998, p. 10).

A pesquisa neste campo impôs, assim, a percepção de que existe uma diversificação da produção escolar, em função da natureza de cada estabelecimento de ensino. A escola passou a ocupar o centro da investigação, sendo vista como o lugar onde o sucesso ou o insucesso são produzidos. Tratou-se de um contributo decisivo que não pode deixar de ser reconhecido, seja qual for o nível de crítica que se desenvolva a respeito deste campo.

(…) Desde o início dos anos 90, estes e muitos outros desenvolvimentos foram explorados e aprofundados neste campo, que evoluiu tanto desde a publicação do relatório de Coleman et aI. (1966) que, hoje, para estudar as mesmas questões, poucos investigadores voltariam a repetir o que foi feito nos estudos iniciais.

O movimento das escolas eficazes deu dois contributos essenciais ao mundo da educação: combateu o pessimismo sociológico e o determinismo estrutural e cultural (isto é, a ideia de que a escola é impotente para contrariar as diferenças sociais existentes), e trouxe uma nova esperança e uma fonte de auto-estima aos profissionais do ensino, levando-os a acreditar que são capazes de fazer alguma diferença na vida dos alunos. O combate ao determinismo e ao fatalismo no campo educativo é uma das suas grandes conquistas e o optimismo que desencadeou é responsável pelo facto de ser actualmente o campo de conhecimento educacional mais utilizado pelos profissionais do ensino em muitos locais do mundo.

Não obstante as origens progressistas deste movimento, que teve por objectivo original melhorar a escolaridade das crianças pobres, e mau grado os notáveis progressos que conseguiu concretizar ao longo de quase três décadas, ele é, hoje, altamente vulnerável a diversos perigos (…)

Em vez de se encarar este tipo de investigação como uma panaceia para todos os males da educação, importa considerá-lo, sobretudo, como uma forma de ajudar à nossa compreensão dos processos que se desenvolvem no interior da escola e da sala de aula e do impacto que têm sobre os resultados educativos dos alunos. Isto implica que a informação adquirida sobre a eficácia da escola não seja entendida de forma prescritiva. As listas de factores de eficácia devem ser tomadas como eventuais pistas de orientação para o desenvolvimento da escola e não como receitas: o seu potencial mais importante reside no facto de poderem estimular, de forma informada, a reflexão e a auto-avaliação dos professores e das instituições educativas. Tal virtualidade será desperdiçada se o campo sucumbir às tentativas prescritivas de descontextualização e de simplificação excessiva dos seus resultados, tão comuns nos constantes assédios de que é objecto no actual contexto político-ideológico, ao nível planetário.”

LIMA, J.A. (2008), EM BUSCA DA BOA ESCOLA, Fundação Manuel Leão pp. 419-421

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