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Acabo de chegar do Porto.

É uma cidade onde sempre “me senti em casa”. Fosse quando lá estudei, seja agora nas curtas e poucas visitas que fiz nos últimos anos.

Desta vez fui lá devido a um convite e um desafio do José Matias Alves, organizador de um dos muitos Cursos de Verão da Universidade Católica.

Foi um dia e meio de grande intensidade e de muita aprendizagem, quer pela extraordinária capacidade de comunicação dos conferencistas – Giovanna Barzanò e Antonio Bolívar -, quer pela enorme  qualidade dos comentários às suas conferências, a cargo de Maria do Carmo Clímaco e de Roberto Carneiro, quer ainda pelo interessantíssimo painel que teve a participação de José Maria Azevedo, José Matias Alves, Ana Rio e João Trigo e que foi moderado por Natércio Afonso.

No primeiro dia o tema central foi a Liderança, olhada à luz das Lógicas de Responsabilidade, tendo por base o estudo comparativo que Giovanna Barzanò realizou sobre os modos de reponsabilização e de prestação de contas das lideranças escolares em Inglaterra, Itália e Portugal.

Depois da conferência da manhã, o painel da tarde e o debate subsequente completaram um dia em que se afirmaram algumas ideias-chave, das quais achei mais significativas duas afirmações de JMAzevedo – Inspector Geral da Educação

  • A liderança deve ser entendida como a capacidade de dar sentido à escola (cada escola como uma entidade única, com um contexto, uma história, um projecto)
  • A Administração deve confiar sem abandonar (realizando um compromisso entre a pressão externa  da prestação de contas e a capacidade de auto-regulação profissional dos professores)

A conferência de hoje, a cargo de Antonio Bolívar e com os comentários de Roberto Carneiro, foi o complemento perfeito para os trabalhos de ontem.

O factor crítico identificado por A.Bolívar como o compromisso dos professores, embora não permita abandonar as preocupações com o controlo hierárquico que permite reduzir as incertezas, aponta claramente no sentido do que foram as palavras de JMAzevedo quanto à necessidade de se confiar nos professores, em vez de estes serem “os culpados de serviço”.

Esta pequena crónica não ficaria completa sem uma referência às magníficas intervenções de Roberto Carneiro. Confesso que nunca o tinha ouvido em intervenções deste tipo. E confesso que fiquei deslumbrado. Foi uma lição que não esquecerei e pela qual teria valido a pena a ida ao Porto, mesmo que fosse a única intervenção que eu tivesse ouvido.

O Professor Roberto Carneiro falou-nos da necessidade de termos líderes que saibam ser servidores, i.e., que sejam capazes de

  1. Ouvir o outro
  2. Entender os problemas e as necessidades do outro
  3. Transformar o outro
  4. Estar atento ao outro
  5. Inspirar o outro
  6. Sonhar e fazer sonhar o outro
  7. Intuir as coisas que vão acontecer
  8. Dar a orientação que crie confiança
  9. Comprometer-se com o crescimento do outro, em todas as dimensões
  10. Construir comunidades e criar riqueza social

Todo um programa que explica, de forma definitiva, porque falhou a perspectiva de Maria de Lurdes Rodrigues, Jorge Pedreira e Valter Lemos. Três pessoas que, porque eventualmente não conseguiram nunca um compromisso efectivo com o profissionalismo docente, só conseguem imaginar os professores como uns malandros e os maus da fita. No fundo, como diz a sabedoria popular, o bom julgador a si se julga.

Não fiquei para assistir ao painel que se realizou hoje à tarde. De facto, depois da apoteose que foi a lição magistral de Roberto Carneiro, não me seria possível ficar para ouvir o “pai dos pais” e o “presidente dos presidentes” (ou o “director dos directores”) a falarem sobre escolas e saída de labirintos. Seria o completo anti-climax.

Nota 1: a declaração de princípio enunciada por Roberto Carneiro, ao afirmar que a Escola não é um Mercado e que a Relação Pedagógica não é uma Relação Comercial, é algo de enorme importância que deve ficar para as actas.

Nota 2: penso que dentro de algum tempo o JMAlves disponibilizará no Scribd alguns dos textos das conferências, que recomendo vivamente a quem não teve a oportunidade de estar presente.

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