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Daniel Pennac é um escritor francês de enorme popularidade. Tem alcançado grande sucesso internacional com alguns dos seus romances.

Em 2007 obteve o Prémio Renaudot com uma obra em que relata a sua experiência traumatizante enquanto aluno cábula, que de acordo com os canones da “escola da exigência e do rigor” o teria destinado a “não ter futuro”.

Para aguçar o apetite, e de certa forma provocar os grandes defensores do rigor, da excelência e do papel selectivo da escola, reproduzo de seguida a ficha de informação estampada na contra capa do livro

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Note-se que se trata de uma avaliação realizada no ano da graça de 1954, o que se a compararmos com algumas peças literárias produzidas em muitos conselhos de turma das nossas escolas básicas e secundárias, apenas nos confirma que a escola e as suas práticas não terão mudado tanto assim.

Mas, para deixar mais um gostinho, fica um excerto dos primeiros capítulos do livro:

Dois cavalheiros de uma certa idade passeiam nas margens do Loup, o rio da sua infância. Dois irmãos. Eu e o meu irmão Bernard. Meio século antes, mergulhavam naquela transparência. Nadavam no meio das fataças que não se assustavam com o alvoroço provocado.

(…)  Anuncio a Bernard que tenciono escrever um livro tendo como tema a escola; não a escola que muda na sociedade que muda, como mudou este rio, mas, no cerne desta incessante agitação, sobre o que não muda, justamente, sobre uma permanência sobre a qual nunca ouço falar: a dor partilhada entre o cábula, pais e os professores, a interacção entre estas mágoas da escola.

(…) Não, um livro sobre os cábulas! Sobre a dor de não compreender, e os seus danos colaterais.

– Podes dizer-me mais alguma coisa sobre o cábula que eu fui?

– Queixavas-te de falta de memória. As explicações que eu te dava à tarde evaporavam-se durante a noite. No dia seguinte de manhã tinhas esquecido tudo.

De facto. Eu não decorava, como hoje dizem os jovens. Não compreendia nem decorava. As palavras mais simples perdiam substância logo que me pediam que as encarasse como objecto de conhecimento. Se tivesse de aprender uma lição sobre o maciço do Jura, por exemplo (mais do que um exemplo é, na verdade, uma recordação muito precisa), esta pequena palavra decompunha-se imediatamente até perder qualquer relação com o Franco-Condado, o Ain, a relojoaria, as vinhas, os cachimbos, a altitude, as vacas, os rigores do Inverno, a fronteira com a Suíça, o maciço alpino ou a simples montanha. Não representava mais nada. Jura, dizia para comigo, Jura? Jura … E repetia a palavra, incansavelmente, como uma criança que nunca mais acaba de mastigar, mastigar sem engolir, repetir sem assimilar, até à total decomposição do gosto e do sentido, mastigar, repetir, Jura, Jura, jura, juro, juras, jura, jurojurasjura, até a palavra se tornar uma massa sonora indefinida, sem o mais leve resquício de sentido, um ruído pastoso de ébrio num cérebro esponjoso … É assim que se adormece sobre uma lição de Geografia.

(…) Sim, é próprio dos cábulas, repetem à exaustão a história da sua cabulice: sou um zero, nunca conseguirei, nem vale a pena tentar, estou antecipadamente tramado, eu bem vos dizia, a escola não foi feita para mim … A escola afigura-se-lhes um clube muito fechado no qual se recusam a entrar. Com a ajuda de alguns professores, às vezes.

(…) Dois cavalheiros de uma certa idade passeiam ao longo de um rio. No final do passeio, alcançam um charco rodeado de canas e seixos.

Bertrand pergunta:

– Continuas a ser especialista em ricochetes?

Pennac, D. (2007), Mágoas da Escola, Porto Editora 1ª ed. 2009

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