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Pinto de Sousa finge que muda mas, mesmo na mistificação da mudança, revela o mais profundo desprezo pela inteligência dos portugueses.

Anteontem, depois de uma ida ao parlamento em que conseguiu ser um pouco menos arrogante do que era habitual até à estrondosa derrota de dia 7, apareceu numa “entrevista” na Sic com ar de anjo barroco e voz de querubim, pedindo desculpa aos eleitores pela arrogância que tinha sido a sua marca no passado. Mas, de caminho, foi explicando que tudo o que tinha feito até dia 6 estava bem feito, e merece ser tão elogiado, que acha que os portugueses lhe devem dar de novo o poder em Setembro.

O que Pinto de Sousa nos veio dizer é que é um homem novo com ideias velhas. Porque as ideias velhas estão certas, apesar de os portugueses acharem que estão erradas. Nós é que não percebemos, mas ele, um Homem Novo, muito mais apaziguador e dialogante, vai agora passar a usar um tom de voz mais mavioso, evitando assim que os portugueses tenham tanta dificuldade em perceber a bondade das suas políticas.

Dito de outra forma, Pinto de Sousa propõe-se continuar a malhar em nós, só que agora passará a dar-nos uns suporíferos e uns analgésicos, para assim não nos doer tanto.

Como devem imaginar, assistir à alegada entrevista na Sic foi para mim um suplício, que apenas foi suportável devido ao sedativo da voz tranquila, pausada e quase celestial com que ele respondia às “questões” da entrevistadora. Felizmente os temas da educação foram tratados logo no início, o que me permitiu mudar de canal rapidamente.

Sobre o resto não me posso pronunciar, mas o que Pinto de Sousa afirmou sobre os problemas com a educação, e a tentativa de reduzir tudo à questão da “avaliação”/classificação de serviço, apenas demonstram a completa incapacidade do senhor (e já agora da camarilha que o aconselha) de perceber onde errou, como errou e porque errou. Além de que, ter o topete de afirmar que a ADD era “demasiado exigente”, só pode ser entendido como uma tentativa desajeitada de fazer humor (e humor negro, porque com a avaliação não se pode nem deve brincar).

O pior é que quem vier a seguir, se não for capaz de perceber que as “receitas” transnacionais não se aplicam acriticamente em todo o lado, vai acabar por nos obrigar a vir para a rua já a partir de Outubro.