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«As eleições europeias são efectivamente diferentes das legislativas e das autárquicas que se lhe seguirão, este ano, em Portugal. Mas criaram condições para que se possa vir a estabelecer, se não houver cuidado, uma dinâmica contrária ao PS e ao seu Governo. Daí que obriguem os eleitores de esquerda – todos – a reflectir quanto à estratégia que lhes convém adoptar para não avolumarem a vitória da direita nos próximos actos eleitorais. Em tempo de crise tão grave, como aquele que vivemos, seria perigoso que isso acontecesse. Lembremo-nos dos anos 30 do século passado e dos ensinamentos que nos deixaram. Por isso ouvi, com gosto, na TV5 (francesa), Cohn-Bendit, um dos vencedores (relativos) da noite eleitoral de domingo, em França, fazer um apelo à união de esquerda. Porque, com efeito, a esquerda dita radical cresce, quando o PSE (os partidos do socialismo democrático) perdem em toda a Europa, com pouca excepções. Mas para que lhes serve essa vitória – dir-se-ia à Pirro -, se quem ganha, efectivamente, é a direita, onde há, infelizmente, tantos núcleos eurocépticos, xenófobos e neocons?…»

Na sua crónica, no DN, Mário Soares, do alto da cátedra da sua experiência, faz um apelo aos eleitores de esquerda para que se juntem ao seu PS. Classifica a esquerda que reforçou posições, em Portugal e noutros países europeus, como a esquerda radical ou extrema esquerda e avisa que quem ganhou as eleições foi a direita.

Só que Mário Soares continua a escamotear o facto de que os partidos socialistas, em particular os da 3ª via, há muito deitaram no lixo os valores de esquerda e se arvoraram nos mais firmes executores das políticas neo-liberais, impostas pelas instâncias de regulação da globalização transnacional. Pinto de Sousa, um seguidor aplicado das políticas de Tony Blair, foi muito mais longe na criação de condições para a privatização dos serviços públicos lucrativos, do que alguma vez poderia ter ido qualquer líder da direita portuguesa (veja-se a forma como é bem visto pelos capitalistas portugueses). Da saúde à educação, passando pela banca, o governo do PS tudo tem feito para privatizar os lucros e nacionalizar os prejuízos.

Sendo assim, faz sentido devolver a questão a Mário Soares – para os eleitores de esquerda, de que vale uma vitória de um partido que usa uma fachada retórica de esquerda, para uma vez no governo aplicar a cartilha da direita e do capital? Para os eleitores de esquerda, uma nova vitória de Pinto de Sousa e dos seus amigos que dominam o aparelho socialista é que seria uma vitória à Pirro.

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