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Ana Maria Bettencourt, a nova presidente do Conselho Nacional de Educação escolhida pelo PS, deu uma entrevista ao jornal Público. Até aqui nada de extraordinário. Trata-se de uma pessoa com uma longa carreira política dedicada ao partido que detém a maioria de deputados na Assembleia da República.

Que esta cidadã exerça o cargo para que foi escolhida é perfeitamente legítimo e natural. Que dê entrevistas aos órgãos de comunicação social é um direito que lhe assiste, e uma forma legítima e democrática de dar a conhecer aos cidadãos qual o seu pensamento sobre a área em que assume novas responsabilidades.

O que é pouco aceitável é que, para fundamentar as políticas que o seu partido quer aplicar, utilize um argumento de autoridade científica que carece de legitimidade.

É que quando queremos falar de Educação (e da Escola Pública enquanto uma escola de massas, democrática e ao serviço da sociedade e da cidadania) não podemos olhar para a escola isolada da comunidade em que está inserida.

O que Ana Maria Bettencourt veio dizer sobre a escola e os professores portugueses, na esteira de toda a argumentação aduzida pelos ideólogos pêéssianos que sustentam as políticas de Maria de Lurdes Rodrigues e de Pinto de Sousa, é de uma cegueira total e absurda.

Comparar a escola e os professores portugueses (que nos últimos trinta anos fizeram o que os outros países desenvolvidos tinham feito desde o início do século XX) com a escola e os professores finlandeses, ou outros quaisquer, é injusto e hipócrita.

Injusto porque responsabiliza aqueles que foram o verdadeiro pilar da democratização e da universalização da escolaridade, depois do derrube do Estado Novo, pelos insucessos que têm que ser assacados a quem devia ter promovido políticas públicas integradas, visando a equidade no tratamento de todos os cidadãos.

Hipócrita porque estes “especialistas”, sendo titulares de graus académicos que pressupõem a investigação e reflexão sobre a sociedade, têm a obrigação de saber que foram as políticas de contenção orçamental perseguidas pelos sucessivos governos (desde os longínquos tempos de Soares e do FMI) que ditaram o isolamento da escola portuguesa face aos restantes mecanismos de apoio social, que sempre funcionaram no Norte da Europa (tão louvado por Soares, Sampaio e outros social-democratas da mãozinha fechada), mas que no nosso país nunca passaram de uma miragem para enganar incautos e obter uns “votozinhos” em dia de eleição.

Quando Ana Maria Bettencourt diz que quer outro paradigma para a escola pública, devia dizer que o que preconiza é um retorno a um modelo de escola mais próxima dos colégios dos Jesuítas ou de um ensino individual. Ao mesmo tempo que devia exigir aos seus camaradas de partido e ao seu ministro das finanças um orçamento que lhe permitisse por em prática as tutorias e esse ensino individual, o que permitiria deixar de ensinar a todos como se fossem apenas um.

Não tenho dúvidas de que o atendimento personalizado ao aluno e que a tutoria que pudesse minimizar o abandono familiar e social, a que quase todos os alunos com insucesso estão sujeitos, seria um poderoso factor de promoção do sucesso escolar e de desenvolvimento do país.

Só que isso, como bem sabe Ana Maria Bettencourt e todos os outros políticos que vestem as roupagens de académicos, custa dinheiro. Quando os partidos do sistema, que se apropriaram da revolução desde os finais da década de 70, passarem a olhar para os custos com a Educação como um investimento no futuro, em vez de olharem como uma despesa que é preciso reduzir, perceberão que não devem exigir mais trabalho a cada professor, mas têm que criar as condições para que cada professor possa preocupar-se com menos alunos e assim possa dedicar mais tempo a cada um deles.

E já que tanto gostam de seguir o exemplo dos sectores privados, perguntem-se porque é que os explicadores que têm melhores resultados são os que dão explicações individuais? Ou porque é que nas equipas desportivas de alto rendimento desapareceram os treinadores faz-tudo, passando a existir colectivos de especialistas, que trabalham para o sucesso da equipa sob a coordenação de um responsável muito bem pago?

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