Não sendo um espectador regular do programa “O Eixo do Mal”, da Sic Notícias, vejo-o algumas vezes com interesse.

Gosto particularmente do trabalho de moderação de Nuno Artur Silva e, por vezes, acho pertinentes as opiniões emitidas pelos comentadores residentes.

Evidentemente que não espero daquele programa um grande nível de profundidade na análise dos problemas do país, mas admito que a visão que nos traz sobre alguns dos acontecimentos da semana é, além de divertida, por vezes uma visão crítica e fundamentada. Mas a maior parte das vezes os comentadores ficam-se pelas banalidades do senso comum, assentes no argumento de autoridade que lhes dá o facto de serem jornalista e terem um palco mediático com visibilidade televisiva, 45′ por semana.

O programa de ontem (que hoje à tarde voltará a ser transmitido) acabou por revelar o pior dessa faceta e o grau zero da honestidade na argumentação dos 4 jornalistas/comentadores, a propósito do episódio Vital, que ocorreu no 1º de Maio. Da desgraça absoluta se terá livrado Clara Ferreira Alves, que preferiu remeter o assunto para matéria do foro policial, embora não tenha verdadeiramente contestado a argumentação dos seus colegas de programa e de profissão.

Não me interessa analisar o episódio ocorrido na manifestação, sobre o qual já se escreveu e disse demais durante esta semana. O que me deixou estupefacto foi a forma como, subrepticiamente, os comentadores deram por adquirida a versão de Vital e do PS, usando a argumentação dos spins e do candidato, e reforçando perante os espectadores do programa a ideia de que:

  1. Vital foi agredido fisicamente;
  2. Os agressores foram membros do PCP, eventualmente destacados para a tarefa (só falou mencionarem as “brigadas Brejniev”).

O mais curioso foi que, nessa sanha acusatória contra os comunistas, Daniel Oliveira e Pedro Marques Lopes se uniram de facto.

A desonestidade do argumento é visível porque, como bem sabem e omitiram os comentadores, foi um dirigente da CGTP filiado no PS que levou a comitiva Vital para a manifestação. Ora, se o dirigente da CGTP é filiado no PS, é porque também há socialista na CGTP e estes também por lá andavam. Donde, os insultos e alegadas agressões poderiam ter sido praticados por membros do PS, até como forma de promover a estratégia de vitimização do candidato. Mas ainda existe outro dado, sobre o qual D.O. e P.M.L. “chutaram delicadamente para canto”: foi identificado um membro do BE envolvido nas agressões verbais. E sobre a matéria o silêncio caiu sepulcral. Além de que ninguém, até hoje, produziu prova de qualquer agressão física, nem há notícia de que alguém da comitiva tenha sido atendido por qualquer serviço médico ou de enfermagem, na sequência do incidente.

Mas a desonestidade argumentativa chegou mesmo às raias do absurdo, quando P.M.L. se permitiu afirmar que não houve queixa crime (segundo ele terá havido um crime público, que não carece de queixa por parte do ofendido), porque toda a gente desculpa o PCP e os comunistas podem fazer tudo impunemente no nosso país.

Pouco a pouco a União Nacional vai fazendo o seu caminho e, não tarda, ouviremos vozes como a de P.M.L. a pedir a ilegalização do PCP.

É exactamente nesta linha de raciocínio que se continua a usar o argumento do papão comunista, seja nas análises sobre o futuro do país no pós eleições de Outubro, seja numa disputa eleitoral bem menos mediática, como é o caso das eleições no SPGL. Quando assim é, o debate torna-se ineficaz e completamente desinteressante, porque quem usa de desonestidade intelectual e argumentativa supõe que os seus interlocutores e os ouvintes são estúpidos ou ignorantes.

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