Etiquetas

, ,

A afirmação entre aspas é de MLR na sua entrevista ao JN, que pode ser vista aqui.

Trata-se de uma entevista quase de despedida, na qual a ministra vai tendo alguns lapsos que revelam um pouco de cansaço, mas sobretudo uma concepção das políticas públicas que quase consegue a quadratura do círculo, ao misturar o centralismo mais estalinista que se possa imaginar, com a defesa de princípios que atingem as raias do liberalismo mais desregulado.

Mas, sem querer ser exaustivo, vou debruçar-me apenas sobre uma das afirmações da ministra que exige uma desmontagem clara e imediata, tal a desonestidade intelectual de que padece.

Logo no início a ministra afirma: «A entrega dos OI é um dever. Sem objectivos não há processo de avaliação.»

Falácia.

A existência de objectivos para qualquer trabalhador, em qualquer organização, não depende da entrega de objectivos individuais pelo próprio. MLR, uma doutora em sociologia da empresa, sabe que são os órgãos de gestão (hierarquia) que estabelecem os objectivos individuais, de forma a garantir a consecução dos objectivos da organização.

Claro que também sabe que a profissão docente tem, entre as suas especificidades, a particularidade de ser exercida por pessoas com qualificações de grau académico superior, pelo que faz sentido, do ponto de vista organizacional, integrar os saberes e a reflexividade desses profissionais no processo de elaboração dos objectivos individuais. Nesse sentido o ECD concede aos professores o direito de participarem no processo de definição dos seus objectivos mas, como é óbvio a partir da leitura desse mesmo ECD, não lhes fixa o dever de definir tais objectivos.

É assim que se desmonta a falácia:

  • Toda a gente sabe que para desempenhar qualquer tarefa se devem estabelecer objectivos.
  • Também é pacífico que o objecto da avaliação é o desempenho da tarefa e não a formulação dos objectivos.
  • Em simultâneo penso ser pacífico que só pode haver consequências negativas para alguém quando não pratica os deveres que lhe são atribuídos. Seria mesmo um absurdo que alguém fosse castigado por não querer exercer um direito, o que transformaria o direito num dever.
  • A afirmação de MLR é absurda, demagógica e deliberadamente enganadora, porque não está elencado em nenhum documento legal o dever de um subordinado definir os seus próprios objectivos, mas também porque de qualquer modo os objectivos organizacionais e a distribuição de tarefas pelos membros da organização têm implícitos os objectivos que cada trabalhador tem que cumprir.

Donde decorre que há sempre objectivos e como tal é sempre possível haver avaliação.