O Ramiro Marques vem recorrentemente defendendo a necessidade de combater as políticas educativas que, segundo ele, anadrão dominadas por gente perigosa e armada de um instrumento poderosíssimo e letal – o êduques. Nesta sua campanha contra o êduques, na qual está bastante bem acompanhado por gente ilustre como os académicos Fiolhais, Murcho e Crato, mas também por inúmeros “zecos” (bloguers ou não), o Ramiro aponta como caminho a promoção e defesa da “escola cultural“, por oposição à “escola dos afectos”.

O Miguel resolveu colocar no seu blogue uma pergunta que me parece pertinente, a respeito dessa ideia de “escola cultural” e da sua alegada oposição ao êduques. Até porque não estando clarificados os conceitos, pode ficar sem se perceber se há ou não êduques na ideia de promover uma escola cultural.

Também no blogue do MEP Carlos Carujo chama a atenção para o facto de que o êduques tem as costas demasiado largas. Num texto muito interessante, Carujo alerta para a necessidade de não usar comparações simplistas que pouco ou nada ajudam a definir «como deve ser uma escola pública de qualidade sem estigmas».

Tentando dar também um pequeno contributo para este debate, recordo um excelente texto de François Dubet – “O que é uma escola justa” – que recomendo vivamente a todos os professores, em especial aos que continuam a acreditar que é possível e necessário defender a escola pública, republicana e laica.

A priori, o desejo de justiça escolar é indiscutível, mas a definição do que seria uma escola justa é das mais complexas, ou mesmo das mais ambíguas, pois podemos definir justiça de diferentes maneiras. Por exemplo, a escola justa deve:

  • Ser puramente meritocrática, com uma competição escolar justa entre alunos social e individualmente desiguais?
  • Compensar as desigualdades sociais, dando mais aos que têm menos, rompendo assim com o que seria uma rígida igualdade?
  • Garantir a todos os alunos um mínimo de conhecimentos e competências?
  • Preocupar-se principalmente com a integração de todos os alunos na sociedade e com a utilidade de sua formação?
  • Tentar fazer com que as desigualdades escolares não tenham demasiadas conseqüências sobre as desigualdades sociais?
  • Permitir que cada um desenvolva seus talentos específicos, independentemente de seu desempenho escolar?

Cada um de nós acredita que a escola justa deve ser tudo isso ao mesmo tempo, que ela deve responder a todas essas concepções de justiça. O problema surge do fato de esta afirmação ser uma pura petição de princípios, pois cada uma das concepções de justiça evocadas entra imediatamente em contradição com as outras. Assim, uma meritocracia escolar justa não garante a diminuição das desigualdades; a preocupação com a integração social dos alunos tem grande probabilidade de confirmar seu destino social; a busca de um mínimo comum arrisca-se a limitar a expressão dos talentos; uma escola preocupada com a singularidade dos indivíduos age contra a cultura comum que uma escola deve transmitir e que também é uma forma de justiça… Portanto, não existe solução perfeita, mas uma combinação de escolhas e respostas necessariamente limitadas. Este texto busca antes colocar os problemas do que oferecer respostas.

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