Quando uma pessoa ocupa uma posição com algum relevo e passa a ser ouvida na comunicação social (tornando-se de algum modo uma figura pública); quando alguém emerge na opinião pública como líder e rosto de uma organização que se pretende responsável e representativa de uma corrente de opinião; então é necessário ter algum cuidado com as afirmações que se produzem, sobretudo se à partida essa pessoa sabe que as suas palavras vão ser reproduzidas em órgãos de comunicação social.

Infelizmente não foi (nem costuma ser) essa a preocupação do autor das afirmações que transcrevo em seguida:

«Relativamente à adesão dos professores a esta iniciativa, M.M. espera entre 15 e 20 mil docentes, à semelhança dos números registados pelos movimentos a 15 de Novembro, isto se o “tempo der uma ajuda”.»

 

«A participação “é menor do que estávamos à espera”, admitiu M. M., coordenador da Associação de Professores em Defesa do Ensino, numa altura em que os organizadores davam conta da presença de “dois a três mil docentes”… O responsável, citado pela TSF, entende que a menor afluência a este protesto “reflecte não a desmobilização” nos protestos contra o actual modelo de avaliação, mas “a desorientação em que muitos professores estão, face ao tipo de resistência que lhes está a ser pedida nas escolas, nomeadamente pelas direcções dos sindicatos, sem que haja uma perspectiva de continuidade da luta”.» 24/01/09

A inconsistência da primeira afirmação foi cruelmente revelada pelo que aconteceu ontem à tarde em Belém.

A leviandade da segunda afirmação expressa-se no facto de que, em vez de fazer uma análise que leve em linha de conta a verdadeira história da mobilização dos professores portugueses para as lutas em defesa do ensino e da classe, ou a forma habilidosa como o simplex 2 promoveu a divisão da resistência ou a pressão e a chantagem das DRE e PCE’s que jogou com medos atávicos de muitos colegas, M. M. preferiu enveredar pelo discurso anti-sindical a que foi habituando quem o ouve desde há um ano.

Talvez este discurso anti-sindical, sibilino e sub-reptício, seja uma das causas para os níveis de mobilização que se verificam, não apenas na manifestação de ontem, mas também na resistência individual nas escolas.

Por outro lado, o reconhecimento desse discurso anti-sindical por parte das instâncias de regulação política também ajuda a perceber porque motivo a presidência da República se mostrou tão lesta a receber uma delegação dos movimentos, ao mesmo tempo que demonstrou uma enorme dificuldade em agendar uma recepção à plataforma sindical durante todos estes meses de luta dos professores.