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O Público, na sua edição de hoje, inclui um caderno de 56 páginas com um tratamento jornalístico dos resultados obtidos pelos alunos do 9º e do 12º ano, nos exames nacionais.

Embora com um título um pouco redutor «Ranking Ensino básico e secundário», trata-se de uma peça que merece uma leitura cuidada, e em que é possível encontrar pistas muito interessantes para um debate sobre o ensino e as lógicas de acção presentes na elaboração e na interpretação que os diferentes actores fazem dos resultados escolares.

Para além do tratamento estatístico que conduz à elaboração do tal ranking, é possível ler a opinião de diferentes actores sobre os resultados globais e sobre o impacto que estes consideram que os rankings têm nas suas decisões enquanto pais, professores ou líderes das respectivas escolas.

Entre as diversas peças, a que merece para já o meu destaque diz respeito aos resultados alcançados pelos alunos na disciplina de Português. Na edição online aparece apenas a posição da APP, que justifica os piores resultados nesta disciplina com a dificuldade do exame.

No entanto, na edição em papel, surge na página 23, um artigo interessante sobre os resultados que os melhores colégios do ranking obtiveram no exame de Português. A peça assinada por Clara Viana começa com uma frase que me parece significativa: «Quando o caso é o Português, há escolas particulares com lugar cativo no topo global que não conseguem garantir uma posição entre as 50 primeiras classificadas e, por vezes, nem mesmo entre as primeiras 100».

Na verdade são diversos os colégios que não têm sequer oferta nos cursos de humanidades, uma vez que o seu objectivo se centra exclusivamente em garantir que os respectivos alunos tenham lugar nos cursos universitários mais reputados e de mais difícil acesso, em que predominam as áreas científicas.

Um dos exemplos curiosos é o do Externato Ribadouro, que ostenta o troféu de escola que mais alunos coloca nos cursos de medicina e em que a disciplina de História sofre do mesmo mal de que padece o Português: são “disciplinas acessórias” em relação ao que conta – a entrada na universidade – e por isso esta “escola de excelência” obteve este ano a brilhante média de 10,55 a História e no ano passado tinha alcançado uns fabulosos 6,5.

Do mesmo mal sofre o Colégio S. João de Brito que, apesar de uma rigorosa selecção que privilegia o ingresso dos familiares de jesuítas e de ex-alunos, não consegue ficar nos primeiros 100 lugares na classificação de História, muito embora seja o segundo no ranking global do Público e surja em primeiro lugar em diversos outros rankings.

A leitura desta e de outras peças que integram o caderno do Público permite partir para o questionamento das opções que estão em jogo, e das diferentes leituras de sociedade que determinam os projectos de cada uma destas escolas. Permite também lançar alguma clarificação sobre acusações desonestas que são feitas às escolas públicas, nomeadamente quando alguns comentadores encartados se permitem afirmar que os alunos chegam à universidade sem saber Português ou sem se interessarem pela História de Portugal, em particular da nossa História recente. De facto é verdade, pelo menos a julgar pelos resultados dos alunos da escola que mais alunos coloca no curso com a média mais alta de entrada.