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«Limitações da nota em pauta como indicador do desempenho da escola

Em Portugal, como na generalidade dos países da OCDE, a nota em pauta é o indicador de desempenho das escolas por excelência. Isto convém não só aos governos mas também aos pais. E a nota em pauta é de facto um indicador importante. Aliás, no caso dos pais, saliente-se que este indicador é especialmente cativante pois o que verdadeiramente lhes interessa não é tanto a qualidade da escola (que, em rigor, até lhes é indiferente), mas sim do sucesso do seu filho (que é o que verdadeiramente lhes importa). E isto pode ser perverso (Guerra, 2003). Também nos estudos internacionais sobre os sistemas escolares (e.g., PISA) a questão dos indicadores é resolvida adoptandose como resultado pretendido a obtenção de conhecimento e como indicador desta obtenção de conhecimento a nota em pauta que os alunos obtém em testes. Em termos metodológicos, este seria um indicador quase que perfeito. Todavia, dois problemas se levantam. Por um lado, fica sempre por resolver a dúvida quanto à comparabilidade dos resultados (Glória RRamalho, 2003).

Não é só a questão dos contextos em que os testes são elaborados e realizados, mas também a forma como, culturalmente, diferentes populações reagem aos mesmos testes. Por outro lado, e talvez esta seja a dificuldade mais importante, esta opção metodológica tem como pressuposto que o sistema educativo se organiza para obter a melhor nota em pauta possível. Ora, como se viu supra, os objectivos de cada escola podem variar, sendo que a obtenção de conhecimento disciplinar provavelmente nem é o principal objectivo do sistema escolar como um todo. Desde o fornecimento de uma refeição quente diária à indução de comportamentos socialmente aceites, ou, na linha de Freire (1970), à perpetuação do status quo social, há um número importante de objectivos da actividade da escola que não são recondutíveis a notas em pauta.

Consequentemente, medir o desempenho das escolas apenas pelas notas dos seus alunos é redutor. Não se questiona a validade e utilidade de estudos quantitativos em que a nota em pauta é o indicador chave de resultado. Apenas se argumenta que a análise dos sistemas escolares e, em especial a análise da escola, necessita de outros indicadores. Especialmente indicadores de natureza qualitativa que tragam à superfície a relação entre o desempenho da escola e o seu projecto. Esta dificuldade de relacionar o resultado nota com características da escola é aliás bem patente nos resultados apresentados infra.»

Melo, R. (2006), Liberdade de escolha, autonomia e indicadores de desempenho, Revista de Estudos Demográficos, nº 39 – UCP, Lisboa.