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Não vi na televisão nenhuma das provas dos atletas portugueses em Pequim. Estive de férias numa casa em que a única televisão existente apenas transmitia a SIC e a TVI, pelo que apenas acompanhei os ecos destes jogos pela imprensa escrita e pelos telejornais. Fui também lendo algumas coisas escritas em blogues, particularmente nos editados por professores.

Acompanhando assim ao longe o espectáculo, fui-me apercebendo da polémica acerca do fracasso rotundo da comitiva, quando se comparam as metas definidas pelo COP (que o governo validou ao financiar o projecto olímpico para Pequim-2008 ) e os resultados efectivamente obtidos pelos atletas.

A discussão sobre as declarações prestadas à imprensa pelos atletas no fim das suas provas, ou sobre a qualidade (ou falta dela) dos atletas e respectivos treinadores, é-me neste momento irrelevante.

O que me interessa neste momento é compreender como é que 5 cm podem fazer a diferença entre a continuidade ou não do presidente do COP. O que me custa a perceber é como é que 5 cm permitem que toda a imprensa, escrita e falada, deixe de falar em vergonha nacional e passe a considerar que para Portugal esta é a melhor participação olímpica de sempre. O que para mim é totalmente absurdo é que 5 cm de diferença permitam ao governo embandeirar em arco com uma participação «magnífica» do desporto nacional, sem que nada mude na política desportiva deste país.

Porque a verdade nua e crua é que foram os 5 cm que Nélson Évora saltou mais que o 2º classificado que lhe permitiram conquistar a medalha de ouro. E apenas isso transformou a participação da comitiva portuguesa numa participação melhor do que a comitiva de Los Angeles 1984, que obteve 1 medalha de ouro e duas de Bronze, ou do que a comitiva de Atenas 2004, que obteve 2 medalhas de prata e uma de bronze.

Sobre o número de atletas de cada uma das comitivas, sobre o cumprimento ou incumprimento das metas estabelecidas em cada uma dessas representações, sobre as expectativas pré-existentes, sobre os custos e o investimento feito em cada um desses ciclos olímpicos, nem uma palavra. É desta forma que os mídia e os governos gostam de avaliar: a «olhómetro». Porque dá jeito e assim sempre se pode dizer e escrever o que convém, de forma a contentar a populaça.

Clarificar os conceitos, definir à priori os critérios através dos quais se faz a avaliação dos resultados e realizar a dita avaliação sem alterar os critérios, é coisa de somenos.

No desporto como na vida quotidiana e em particular na política à portuguesa.

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