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Ainda sobre a questão da avaliação “interpares”, parece-me existir um conflito insanável entre o discurso e a prática dos responsáveis ministeriais, desde logo pelo facto de terem destruído a ideia de “pares” ao separarem a carreira em categorias diferentes. É que os “pares” devem ser iguais em direitos e deveres, o que não é o caso entre titulares e as restantes categorias de professores e “ainda não professores” que os titulares têm que avaliar.

E que dizer dos directores/gestores? Alguém os pode considerar pares dos professores? Nenhuma das funções que desempenham pode ser exercida pelos professores, ao mesmo tempo que eles próprios não desempenham nenhuma tarefa directamente relacionada com a actividade docente.

Significa isto que a avaliação do desempenho docente não será nunca uma avaliação entre pares mas, pelo contrário, será uma avaliação realizada por actores que por decisão ministerial foram investidos de um poder hierárquico, que não é reconhecido profissionalmente por muitos dos seus subordinados.

Aqui chegados parece-me ser útil relembrar Friedberg e o seu «O Poder e a Regra» quando alerta para que: «A relação de autoridade é o exemplo bem conhecido de uma relação transitiva: numa cadeia hierárquica, o topo A tem, dada a sua posição, autoridade sobre B, C e D que são todos seus subordinados. As coisas são diferentes na relação de poder. Não é pelo facto de A ter poder sobre B nas suas transacções com ele que dispõe automaticamente desse poder sobre C, mesmo que C seja subordinado de B. Tudo dependerá da relação concreta e específica que se estabelecer entre A e C e na qual o poder de A sobre B não é necessariamente nem automaticamente um recurso pertinente.»

Reflectir sobre esta questão permite-nos perceber melhor o que estará em jogo nas relações que se vão estabelecer entre os novos directores, os titulares avaliadores sobre quem eles exercerão um poder tutelar, que se traduz na sua nomeação e exoneração a qualquer tempo, e os professores avaliados, que no quotidiano escolar exercerão em pleno a sua função docente.