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A propósito da entrevista de Nuno Crato ao Jornal de Negócios, que o Paulo Guinote publicou no seu blogue, as opiniões dividiram-se. De resto, quase sempre que Nuno Crato fala sobre o sistema de ensino não superior, é normal que nem toda a gente esteja de acordo com ele.

Bem sei que a generalidade das pessoas se revê no populismo das suas análises, mais baseadas no senso comum e nas grandes tiradas mediáticas do que no rigor das evidências empíricas.

Mas entre os que discordam das críticas de Nuno Crato à escola portuguesa nem todos o fazem pelos mesmos motivos.

No meu caso a discordância não se situa no facto de achar que as críticas ao ME e ao governo são injustas porque as políticas governamentais são boas. Nada disso. O que se passa é que as alternativas sugeridas por Nuno Crato (embora ele nunca o tenha explicitado) levariam a um retorno à escola elitista, anti-democrática e exclusiva, que antes de 74 garantia o analfabetismo de quase todos e a mobilidade social ascendente a uns quantos, que não se atrevessem a pôr em causa a perpetuação das classes dominantes no poder.

O ataque (de que Nuno Crato é um dos mais visíveis pontas de lança) à avaliação formativa, baseado numa defesa dos exames nacionais únicos e rigorosos, como salvação do ensino em Portugal, não é despido de uma intencionalidade política, ao contrário do que nos querem fazer crer. Aliás, não é preciso fazer um grande esforço para localizar o partido que há mais tempo, em Portugal, defende esse “rigor” e o princípio da “prestação de contas” que lhe é inerente.

No nosso país, apesar do enorme atraso com que se procedeu à democratização do acesso à escola, há quem queira queimar etapas e pretenda desenvolver uma escola meritocrática antes de se ter consolidado a escola de massas. Porque a verdade é que, apesar do esforço realizado e da diferença abissal que existe entre a escola que existia no dia 24 de Abril de 1974 e a que existe hoje, a sociedade portuguesa ainda é demasiado desigual para que se possa defender o mérito sem olhar às condições objectivas de acesso ao sucesso que cada criança tem à partida.

«A modernização de tipo neotayloriano institui uma racionalidade tecnocrática assente na “cultura do positivismo”, relegando “a natureza política da escola à sala de espera da teoria e práticas educativas”, como observa Henry Giroux. A racionalidade técnica, no sentido de Habermas, oposta à racionalidade hermenêutica e à racionalidade emancipatória, é certa e objectiva, acentua o controlo e a mensuração dos resultados, é neutra e livre, ou acima dos valores e de interesses ou, quando muito, qual “varinha mágica”, como escrevem Correia, Stoleroff e Stoer a propósito da modernização, eleva os interesses particulares à categoria de interesses universais

Lima, L. (2002), «Racionalização, Eficácia, Controlo de Qualidade», in Reformas da Educação Pública, Ed. Afrontamento, Porto